São Paulo, 15 (AE) - A bela atriz Ana Paula Arósio enfrenta um grande desafio ao subir ao palco do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, amanhã (16) à noite. Com apenas duas experiências teatrais no currículo, ela contracena com Cássio Scapin, sem dúvida um dos mais talentosos atores teatrais de sua geração, na comédia dramática "Harmonia em Negro", que reúne três peças curtas de autoria do italiano Aldo Nicolai. Ambos atuam sob a batuta de Del Rangel, diretor com experiência na TV e no cinema, que faz sua primeira direção em teatro. Cenários e figurinos foram criados pelo premiadíssimo Fábio Namatame, que repete a parceria já feita com Scapin no ótimo espetáculo-solo "Memórias Póstumas de Brás Cubas".
"Harmonia em Negro", que estréia amanhã, parece ter tudo para agradar a uma larga faixa de público, desde o espectador mais exigente até aquele que vai ao teatro buscando apenas divertir-se. São três histórias curtas, cada uma com duração em torno de 20 minutos, todas de humor negro, daí o título. Na primeira delas, um homem surpreende uma mulher no momento em que ela tenta suicidar-se, jogando-se do alto de um mirante. Ele tenta demovê-la da idéia, mas seus argumentos revelam um funcionário público de vida absolutamente medíocre, o que dificulta seu objetivo.
Em seguida, Ana Paula e Scapin vivem um casal de ricaços em lua-de-mel. Ricos, bonitos e felizes, tudo parece correr às mil maravilhas. Porém, já na noite de núpcias, com as peças de roupa despem também as máscaras e o péssimo caráter de ambos vem à tona. "Subornos, falsificações, podres familiares, tudo se revela nessa noite", diz Scapin.
Na última história, um marido esmera-se nos cuidados com sua mulher que está à beira da morte. Metódico, faz todos os preparativos para a trágica perda, porém é surpreendido pela súbita melhora da amada e não está preparado para lidar com a reversão de expectativa, que lhe acarreta imensos problemas. "Ele é um militar e se comporta como um estrategista diante da morte", diz Ana Paula. "A peça fala dessas pessoas metódicas que excluem a arte da vida e não abrem espaço para o inesperado", comenta Scapin. Entre a farsa e a emoção - Para o ator, o grande mérito do texto é lidar com o humor de forma inusual. "Comédia dramática é a melhor definição de gênero para o espetáculo", diz Scapin. "Embora a peça brinque com situações cotidianas e reconhecíveis pelo público, não é um humor de chanchada ou besteirol; todos os personagens têm conflitos, o que obriga o ator a trabalhar no fio da navalha entre a farsa e a emoção verdadeira".
"Não é uma comédia para gargalhar: o humor é mais refinado e graças a Deus estou contracenando com Cássio, que me ensinou muito", diz Ana Paula. Scapin sonhava montar esse espetáculo havia seis anos, quando adquiriu os direitos autorais do texto diretamente com o autor. "Estava na Itália, procurei o endereço do Aldo Nicolai na lista telefônica e bati à sua porta", conta.
Nascido em 1920, o autor italiano tem várias peças traduzidas e encenadas pelo mundo. "Ele é um velhinho muito simpático e não só me cedeu os direitos sem problemas, como os renovou agora, já que na época não consegui realizar a montagem". Scapin não chegou a assistir à montagem da peça no exterior, mas ressalta que na Itália ela foi encenada por seis atores. "O barato desse espetáculo é propiciar um grande exercício de estilo", afirma Scapin. Segundo o ator, a primeira história tem um estilo mais cinematográfico, a segunda é quase teatro de revista e a terceira vai na linha do absurdo.
"A primeira exige um trabalho mais interiorizado, a segunda é mais escrachada e a terceira, mais realista", diz Ana Paula. Às vésperas da estréia, a atriz disse já ter passado das fases do pesadelo e da insônia. "Depois que desencanei da obrigação de fazer rir, tudo fluiu melhor, mas não sei se já consegui relaxar", diz. Ela havia trabalhado antes com os diretores Antônio Abujamra, em "Fedra", e Celso Nunes, na comédia "O Batom". "Eram trabalhos muito diferentes, o primeiro uma tragédia grega, o segundo uma comédia mais chanchadona; Del e Cássio ajudaram-me na desconstrução do que eu já trazia para enfrentar esse novo trabalho", comenta a atriz. Primeira vez - Del Rangel foi o primeiro diretor de Ana Paula. "Ela atuou pela primeira vez na novela "Éramos Seis" no SBT e
no primeiro dia, teve de gravar 19 cenas", lembrou Rangel. Ele voltou a trabalhar com a atriz, dessa vez contracenando com Scapin, na novela "Razão de Viver", também no SBT. Mas o teatro não estava nos seus planos, apesar da insistência de muitos atores. "Eles diziam que eu era bom diretor de atores e por isso devia fazer teatro", conta. Mas ele sempre recusou convites. "Teatro é difícil, é outro veículo, não tem lente e aquela imensa caixa preta é assustadora", diz.
Mas relaciona várias razões para ter aceito o convite: o talento dos dois atores, a qualidade do texto e o desejo de vencer o pavor do palco. "Estou satisfeito com o resultado; acho que há soluções bem-feitas para um peça difícil, de humor negro, quase mórbido, mas sou um iniciante e o tempo todo convivo com os fantasmas de diretores que admiro e, imagino, vão encontrar defeitos", brinca. Ele avisa ter optado por uma concepção que privilegia os atores. "Eu saio de cena na estréia
não deixo uma marca de diretor".
A mesma capacidade de síntese exigida dos atores e diretor para contar uma história em apenas 20 minutos orientou Namatame na criação dos cenários - uma escada/mirante, um bolo de noiva/cama e uma estante de remédios - e figurinos de poucas cores, nos tons negro, branco e sépia. "Não é uma comédia rasgada, Cássio atua com um leveza quase chapliniana e os figurinos e cenários seguem essa linha".

mockup