Os sonhos acompanham a escritora Ana Miranda. Desde adolescente, acostumou-se a escrever na manhã seguinte o que vivenciara na madrugada. Algumas vezes, chegou até a fazer desenhos. Encheu cadernos com as histórias criadas pela mente. Com os anos, foi perdendo essas anotações, até sobrar um volume, mantido por sua mãe, que a Dantes Editora lança nesta semana. Em ‘‘Cadernos de Sonhos’’ (144 páginas, R$ 22), Ana Miranda reúne as notas que tomou entre 1972 e 1976, período em que também esteve grávida. A escritora faz leitura de trechos do livro hoje, às 19 horas, na Fnac, em São Paulo.
‘‘Com as anotações nos cadernos, passei aos poucos a lembrar de sonhos mais distantes e mais imaginativos’’, escreve a autora, na introdução do livro, cuja capa apresenta também inscrições em braile. ‘‘Às vezes, de manhã, eu me recordava não de um, mas de uma série deles.’’
Mais sonolenta por conta da gravidez, a escritora lembra que dormia durante o dia. ‘‘Também me deixou mais sensível, o que pode explicar os sentimentos mais intensos que marcaram esses sonhos.’’
Ana Miranda voltou a escrever, há alguns anos, seus sonhos e notou, surpresa, a diferença na temática. ‘‘Agora, são mais literários, mais realistas. Naquela época, eram mais selvagens, oníricos, como se fossem delírios.’’
Apesar de um início na literatura mais centrado em pesquisas históricas, a escritora acredita que os sonhos sempre apresentaram um peso importante em sua carreira. ‘‘Minha ligação com o onisciente sempre foi muito forte por meio dos sonhos.’’
Ex-atriz (atuou em ‘‘Como era Gostoso o Meu Francês’’, de Nélson Pereira dos Santos, entre outros filmes), Ana Miranda utilizou as histórias criadas durante o sono para a criação de um filme experimental, em super-8. ‘‘Foi a união de três sonhos, que estão reunidos no livro’’, observa a escritora, que dirigiu a atuação de Sônia Braga, Arduino Colassanti (então seu marido) e José Carlos Capinam. ‘‘Infelizmente, o filme está perdido.’’
A escritora preocupa-se agora com seu novo livro, que tem o título provisório de ‘‘Felicidade’’. Trata da história de uma escrava, Mariana do Bonfim, que, depois de comprar a própria alforria, sai em busca da filha desgarrada, Felicidade. ‘‘É um fato real, que estou pesquisando.’’

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