Comédia romântica, ‘‘Ana e o Rei’’ faz de Jodie Foster a mais bem paga atriz do cinema mundial
ReproduçãoJodie Foster em ‘‘Ana e o Rei’’: filme tem a deslumbrante fotografia de Caleb DaschanelExatamente um quinto do orçamento total consumido na produção. O salário de Jodie Foster em ‘‘Ana e o Rei’’ é 14 vezes maior do que o exigido (e obtido) por Elizabeth Taylor para fazer ‘‘Cleópatra’’ em 1963. Bem mais baratas, as outras candidatas ao papel ficaram pelo caminho: Emma Thompson e Kristin Scott-Thomas. Valeu a troca? A resposta jamais se saberá, e também não vem ao caso. O que interessa é a superfaturada Ana de Jodie e a refilmagem de um clássico, da Broadway e da tela.
Baseada nos diários - muitos consideram historicamente dúbios - da professora e governanta inglesa Anna Leonowens, esta é a terceira versão cinematográfica de ‘‘Anna and the King’’. A primeira, de 46, teve Irene Dunne e Rex Harrison nos papéis-títulos. A segunda, musical e mais famosa, reuniu em 56 Deborah Kerr e Yul Brinner, um rei antológico e inesquecível. Segundo relatos considerados ‘‘história real’’, no século passado a referida senhora vitoriana é contratada pelo rei Mongkut, do Sião, para educar os 58 filhos dele. O choque de culturas é inevitável, e o centro de interesse da trama são justamente os conflitos, as diferenças, o aparentemente irreconciliável embate Oriente versus Ocidente, e o respeito, a amizade, a compreensão e o afeto desinteressado (?) que nascem num segundo momento entre soberano e tutora, vale dizer, entre povos de costumes tão antagônicos.
A surpresa: esta terceira adaptação é um prazer insuspeitado. Não somente pelo esplendor do desenho de produção de Luciana Arrighi (Oscar a caminho?) ou pela deslumbrante fotografia de Caleb Daschanel, o mago das imagens de ‘‘O Corcel Negro’’, entre outras preciosidades. O que imprime uma necessária dose de mágica a este épico romântico é a química adequada entre seus principais personagens que vivem uma complicada relação. Foster, milhões à parte, está como de hábito bem, modulando com sutileza os dois tempos de Ana - a recém-chegada impertinente/preconceituosa e a adaptada/compreensiva/participante. Mas o desafio de fato coube a Chow Yun-Fat, ator de Hong Kong habituado a transitar em meio a pancadaria e tiroteiros do campo de ação do diretor John Woo. Coube a ele redefinir um papel marcado a ferro e carisma por Yul Brinner, na tela em 56 e no palco por quase 40 anos em ‘‘The King and I’’, o musical
cult de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein. Versátil sem canastrices, Yun-Fat se desdobra para oferecer quase tudo o que se espera de um ator. Particularmente funcionais são as estocadas desferidas na vontade irredutível de Ana quando os dois se põem a duelar verbalmente; ou ainda as intervenções em cenas abertamente emocionais. Não é demais dizer que o ator consegue deixar menos evidentes certas anacrônicas posturas anticoloniais e menos convencionais as intrigas palacianas.
Nem tudo são acertos para o dossiê do diretor Andy Tennant, que ano passado ganhou a simpatia de crítica e público com ‘‘Para Sempre Cinderela’’. ‘‘Ana e o Rei’’ não se sustenta tão bem no terço final de seus 145 minutos, banalizado no episódio do atentado e na explosão de uma ponte, e na atenção demasiada ao tema do imperialismo cultural.
O filme, já lançado em muitos países desde o Natal, vem tendo boa performance de bilheteria. Auxiliada nos últimos dias pela atitude da monarquia da Tailândia, que proibiu a exibição no país por considerá-lo desrespeitoso. (CELJ)

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