Rio, 17 (AE) - Ana Botafogo vai ser Cacilda Becker em meados do ano que vem. A primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio se prepara para viver no palco a grande dama do teatro brasileiro, num espetáculo ainda sem título, que terá direção de José Possi Neto e coreografia de Paulo Argoiles. Dos três, só Possi teve contato pessoal com Cacilda, que morreu em 1969, depois de passar mal durante uma apresentação da peça "Esperando Godot". "Cacilda é uma figura mitológica das artes cênicas brasileiras e nós queremos homenagear a figura carismática que ela é até hoje", explica Ana.
A idéia foi de Paulo Argoiles, também bailarino do Municipal. Ele vê muitos pontos em comum entre Cacilda e Ana. "São duas artistas expressivas, que servem de referência às atividades artísticas às quais dedicaram toda a vida", diz ele. "Além disso, a dança foi a primeira expressão de Cacilda, seus primeiros trabalhos foram como bailarina, num estilo que lembrava muito Isadora Duncan."
Argoiles já alinhavou um primeiro tratamento do roteiro do espetáculo, que não será biográfico, mas pretende mostrar a personalidade artística de Cacilda, em quatro espetáculos que ela estrelou e se tornaram clássicos: "A Dama das Camélias", "Mary Stuart", "Pinga Fogo" e "Esperando Godot". "De cada um deles, vamos tirar uma característica de Cacilda, como a sua dedicação ao amor, o poder, a brejeirice e a infância", explica ele. "Ana vai reviver momentos dessas peças e ainda vai recriar a atriz em cena, usando sua expressividade de uma forma diferente da que estamos acostumados."
A música também está para ser definida. O maestro e compositor paulista Gether Garrotti Júnior vai assinar a trilha sonora, que terá temas clássicos e outros compostos por ele. "Tudo vai depender do que pintar durante os ensaios e mesmo do patrocínio que conseguirmos, para definir quantos músicos teremos em cena, se a música será ao vivo, etc.", diz Argoiles.
Acostumada a viver fadas, ninfas e princesas sobre sapatilhas de ponta, Ana Botafogo acha que este é o momento ideal para mudar de estilo. "É diferente de tudo o que fiz até hoje, mas eu queria mesmo experimentar uma dança mais teatral, mesmo estando consciente da complicação de recriar um personagem real, que algumas pessoas conheceram e bem distante dos que tenho vivido até hoje", lembra a bailarina. "Por enquanto, estou assistindo a tudo que existe em vídeo sobre Cacilda Becker
para me imbuir dela e tentar reproduzir seu carisma."
José Possi Neto só viu Cacilda Becker em cena em seu último espetáculo, "Esperando Godot", mas quase trabalhou com ela na TV Excelsior. "Eu começava a estagiar na televisão como cenógrafo e ela fazia a novela "Inês de Castro", quando tive ocasião de vê-la trabalhando", conta ele. "E fiz duas ou três reuniões com ela, porque estava na equipe do seu programa de televisão, que chegou a estrear em 1968, mas foi censurado na segunda semana."
O diretor lembra que Cacilda era uma atriz pouco convencional e tinha uma beleza atemporal, diferente das estrelas de sua época. "Ela era etérea como as bailarinas e muito magra, se comparada com outras atrizes daquele tempo", lembra ele. "Tanto que o único personagem que lhe deram no cinema foi o de uma tuberculosa (em "Floradas na Serra"), pois ela tinha uma fotogenia estranha, mais admirada hoje que antigamente." Ele lembra que tal qual Cacilda, Ana Botafogo também tem essa silhueta aparentemente frágil que esconde uma grande força física e uma riqueza interior que se evidencia em cena.
Convivência - Com base na pequena convivência com Cacilda e na personalidade da bailarina, José Possi pretende extrair o personagem que Ana Botafogo vai viver, mas a forma final do espetáculo ainda não está definida. "Por minha experiência anterior, sei que um espetáculo de dança teatral, ou teatro dançado, vai surgindo à medida que os ensaios avançam, num processo que vai nascendo aos poucos", ressalta. "Sei que vou ter Ana Botafogo em cena, mas só quando estivermos efetivamente trabalhando saberei de quantos personagens a mais precisaremos e se serão vividos por homens ou mulheres."
Ana Botafogo prefere esperar o roteiro definitivo para falar sobre a forma do espetáculo, mas já adianta que certamente dançará sobre pontas e, em princípio, não falará. "Acho que cheguei a uma idade e a uma maturidade profissional que me permitem experimentar novos estilos e personagens", comenta a bailarina. "Por enquanto, estou dançando os clássicos e me preparando para a nova experiência."
Paulo Argoiles tenta atualmente conseguir patrocínio, depois de ter obtido o certificado da Lei Rouanet para um espetáculo orçado em R$ 250 mil. A idéia inicial é começar os ensaios no verão de 2000 e estrear entre maio e julho, no Rio ou em São Paulo, dependendo dos patrocínios conseguidos. Por enquanto, Ana Botafogo se dedica à remontagem da "Suíte Quebra-Nozes", que será o espetáculo de fim de ano do Theatro Municipal e faz apresentações pelo Brasil afora com trechos dos balés que a tornaram famosa. "Cacilda, por enquanto, é uma promessa de um trabalho mais contemporâneo do que já fiz até agora", conclui a bailarina.

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