Amos Gitai acena com a bandeira da paz
Quis fazer um filme sobre o deslocamento de 1948, disse o diretor israelense Amos Gitai durante a coletiva após a exibição de Kedma (que em hebreu significa rumo ao Oriente), acrescentando que o termo deslocamento tanto se refere aos sobreviventes europeus do Holocausto deslocados em Israel como aos palestinos deslocados pelos israelenses. Logo adiante, outra afirmação: O conflito que hoje nos divide teve seu início em 1948. E outra mais, para ir diretamente ao centro do tema: É a história do povo que me interessa.
Kedma é o nome do velho cargueiro que desembarcou na costa da Palestina em 1948, duas semanas antes do nascimento do Estado de Israel, em 14 de maio. Os passageiros eram judeus de várias nacionalidades, de uma ou de outra forma em busca da nova terra prometida. Em terra, são recebidos com hostilidade: de um lado os ingleses, ainda com o mando do protetorado; de outros os palestinos, habitantes da terra, e também pelo exército secreto judeu. É a este período crucial que Gitai se refere em Kedma, realizado a partir de uma indagação que vem perseguindo o realizador: O que procuravam aqueles primeiros imigrantes, o que imaginavam antes de vir? As lições da história parecem não deter a loucura dos homens. Eles sempre recomeçam os mesmos erros, e é preciso que cesse a selvageria. O cinema é a melhor arma de combate e persuasão.
Paz e tolerância, as bandeiras que Gitai acena em seus últimos filmes - Kadosh e Kippur, vistos aqui em Cannes em 99 e 2000, e Eden, exibido ano passado em Veneza. Apesar de uma construção narrativa esteticamente sofisticada, mas não complexa, Kedma se inscreve nesta luta como um hino, um poema épico e desesperado. O filme é encerrado com dois magníficos monólogos que sintetizam a tragédia que se arrasta há mais de meio século no Oriente Médio. Neles estão enxertados dois textos fortes: um poema do palestino Tawfik Zayad e uma espécie de desabafo de autoria do judeu Chaim Hazaz. O primeiro diz, na voz de um camponês palestino: Aqui ficaremos, apesar de vós, como um muro. Teremos fome, seremos mal vestidos mas nos vos desafiaremos. Faremos filhos revoltados, geração após geração. Em eco, responde o imigrante judeu-russo: Desde o dia em que fomos expulsos de nosso país, nos tornamos um povo sem história. O Messias, um simples mito. Sem ele, tudo teria sido diferente.(C.E.L.J.)





