"Amores" vê as relações contemporâneas com humor
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quarta-feira, 09 de junho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 10 (AE) - A maneira mais fácil de definir "Amores", que estréia amanhã em São Paulo, é dizer que se trata de uma comédia sobre a vida dos casais contemporâneos. Mas talvez também seja a forma mais superficial de se referir a esse inspirado retrato de geração pintado por Domingos Oliveira.
Também tem sido quase obrigatório falar da precariedade técnica de algumas sequências. Ok, "Amores" não é mesmo perfeito. Aliás, os casos de amor da vida real, também imperfeitos, nem por isso são menos belos, tocantes, alegres e angustiados ao mesmo tempo, exatamente como essa pequena jóia do diretor carioca.
Aliás, algumas passagens que parecem desleixadas, tipo movimentos de câmera bruscos, são usadas com clara intenção estética. Afinal, estão sendo tratados os relacionamentos amorosos contemporâneos, com tudo o que eles contêm de precariedade. A câmera instável, de Paulinho Violeta, reflete esse estado de ânimo. O recurso nem é novo. Já havia sido usado por Woody Allen em seu "Maridos e Esposas".
Ciranda - A história é a de uma pequena ciranda amorosa. Domingos faz Vieira, escritor da Globo em via de perder o emprego. Cíntia (Maria Mariana) é a filha com quem vive às turras, naquela relação típica de pai avançado com a garota moderninha. Há um casal de amigos, Telma (Priscilla Rozenbaum) e Pedro, que chegam aos 30 e tantos querendo ter o filho que adiaram por muitos anos. Luíza (Clarice Niskier), irmã de Telma, vive atrás do homem ideal e pensa tê-lo encontrado em Rafael (Vicente Barcellos). Mas os imbróglios sentimentais (e outros não tão inócuos) acabam por levar os casais a se afastar, machucar-se, perdoar-se, etc. Enfim, o de sempre, mas é isso mesmo que é o sal da vida. Tão antigo e tão atual quanto o verso de Dante falando do amor que move o Sol e as outras estrelas.
Na superfície, parece apenas um filme agradável, gostoso
mesmo porque os diálogos fluem com naturalidade que raramente se vê, não apenas no cinema, mas na dramaturgia brasileira de maneira geral. Se você tentar entender por que o "Amores" emociona, além de fazer rir, irá descobrir o motivo. Assim como quem não quer nada, Domingos toca a essência dos relacionamentos deste fim de século. São mais livres, porque afinal a revolução sexual dos 60 deixou traços. Nem tão livres assim, porque os tempos são mais conservadores e apareceu a aids. Conciliadores, porque são síntese da revolução que não se fez por inteiro e da reação conservadora que afinal não se completou. Enfim, é um bom retrato de todos nós e da maneira caótica como tentamos administrar libido e coração.
Serviço - "Amores". Comédia. Direção de Domingos Oliveira e Priscilla Rozenbaum. Com Clarice Niskier, Domingos Oliveira. 14 anos. Distribuição: Riofilme.


