Amores possíveis
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de março de 2012
Mauro Trindade <br> TV Press 
Papai já não sabe tudo há umas três décadas no Brasil. É o que mostra a série ''Novas Famílias'', de João Jardim, que o canal fechado GNT passou a apresentar às sextas-feitas, às 22h. O modelo familiar tradicional, com pais e filhos do mesmo casamento morando sob o mesmo teto, é cada vez mais raro no Brasil. Na verdade, hoje representa menos que 35% dos lares do país.
Não há um único padrão para a família brasileira, o que a série do cineasta João Jardim ilustra com visual macio e gostosa luminosidade, para não chocar algum telespectador distraído com o que anda ocorrendo mundo afora. Caso de duas jovens de São Paulo que resolveram viver juntas e ter filhos. São apresentadas sem o menor ranço de gueto ou de comportamento ''desviante''. Vovôs e vovós comemoram juntos ao casal ''gay'' o aniversário dos netinhos, da mesma maneira que em um núcleo familiar hetero. A série revela com intimidade como as pessoas se adaptam às transformações e seguem a vida adiante.
Em outro episódio, João Jardim aponta a câmara para os pais-avôs, como muitas vezes são conhecidos homens com mais de 50 anos - e, às vezes, com mais de 70 - que tem filhos em seus segundos ou terceiros casamentos. E ainda para os casais que reúnem sob o mesmo teto filhos de relacionamentos anteriores, em delicadas equações de espaço e afetividade.
A série jornalística chega atrasada em relação à dramaturgia da teve e do cinema. ''Os Meus, Os Seus, Os Nossos'', longa de Raja Gosnell estrelado por René Russo, já pensava sobre a situação em 2005. E, bem mais atrás, em 1986, o diretor Bertrand Blier narrava a vida a três no transgressivo ''Meu Marido de Batom''. Sem falar em ''A Gaiola das Loucas'', de 1978, sob a regência de Édouard Molinaro. Aqui no Brasil, os seriados também tentam acompanhar essas alterações da família, de ''Malu Mulher'', de 1979, a ''Tapas & Beijos'', que volta ao ar este ano em nova temporada.
Nas fundações desses novos lares brasileiros está aquela que talvez seja a mudança mais radical do século XX: a independência da mulher. Sem depender do marido provedor, a mulher se tornou livre para decidir se quer casar, ter filhos e que tipo de vida deseja viver. Mais do que os socialismos ou a criação de novos estados na Ásia e na África, foi a descoberta da mulher que modificou de forma radical as sociedades de todo o planeta. É uma força que retém o crescimento populacional em meio mundo, perturba a ordem islâmica e ocupa cada vez mais postos de trabalho em escala global. Uma história que ainda não terminou.
Serviço:
- Novas Famílias - Sextas-feiras às 22h no canal por assinatura GNT


