Spoiler importante e necessário: esta NÃO é uma comédia romântica. Agora sim, prossiga lendo ou não. Na maior parte de "Amores Materialistas" (em exibição em Londrina), segundo opus da diretora e roteirista do belo e nostálgico “Vidas Passadas” (2023), a câmera projeta seus cenários luxuosos com um brilho dourado.

Este é o mundo de uma casamenteira (matchmaker, no original em inglês) de sucesso e alta renda na cidade de Nova York. Responsável por nove casamentos, Lucy (Dakota Johnson), enquanto sua chefe se vangloria durante uma fulgurante celebração no escritório, mostra seus “instintos e o olhar aguçado”.

É uma frase que também poderia descrever a diretora sul-coreana-canadense Celina Song, que há algumas semanas falou publicamente sobre como "Materialists" é inspirado em sua própria experiência de outros tempos como casamenteira profissional.

Aqui, a cineasta mais uma vez convoca os talentos de Shabier Kirchner, diretor de fotografia caribenho ("Antigua") com quem trabalhou em "Past Lives", para lançar luz sobre o eu que a personagem Lucy apresenta ao mundo e aquele que ela guarda perto do peito.

No início do filme, Lucy delineia cuidadosamente os lábios com um tom rosado de bom gosto e seleciona joias enquanto a luz quente do sol de seu apartamento se reflete em seus muitos espelhos. Sua voz é um ronronar sedoso e afinado. Todos esses são elementos da persona que Lucy meticulosamente construiu com base nas habilidades de observação afiadas que lhe são tão úteis na profissão.

MÁQUINA DE CALCULAR

Praticamente uma máquina humana de calcular, ela é uma mulher que usa o olhar para avaliar constantemente a comercialização de cada possível parceiro, desde a renda até a educação, a aparência (incluindo a altura e os cabelos) e assim por diante. Parte do que torna Lucy tão boa em seu trabalho é que ela mesma anseia por uma vida definida pelas coisas boas. Então, no casamento de um de seus clientes, ela conhece Harry (Pedro Pascal), o "unicórnio", incrivelmente rico, bonito e forte que pode ser a solução para ela.

Aqui, os diálogos são ricos e plenos de significados.

Mas há um momento lá pela metade de "Materialists" em que a câmera alterna bruscamente entre o brilho sofisticado do presente de Lucy e o brilho intenso e diurno de seu passado. Neste flashback, a visão muda através do para-brisas sujo de um Volvo surrado para Lucy discutindo com seu antigo amor, John (Chris Evans). É o quinto aniversário do namoro de Lucy e John e, pela primeira vez, esses dois jovens nova-iorquinos falidos estão tentando comemorar com uma refeição em um bom restaurante.

Para Lucy (Dakota Johnson), o amor com um homem pobre é inviável
Para Lucy (Dakota Johnson), o amor com um homem pobre é inviável | Foto: Divulgação

É um programa que eles não podem pagar, um fato sobre o qual discutem enquanto lutam para encontrar uma vaga para estacionar. "Não quero te odiar porque você é pobre", ela diz a ele com um tom áspero na voz.

A luz forte enfatiza as linhas do seu rosto, que, principalmente, permanece encantador, apesar das imperfeições. É um dos momentos mais reais do filme para Lucy, que acaba se reencontrando com John enquanto ele trabalha como garçom no mesmo casamento em que ela conhece Harry.

Pelos cálculos de Lucy, Harry é perfeito no papel, e não poderia ser personificado por um galã melhor do que Pascal. Ele fala a língua dela, observando que ela promove seus serviços profissionais como um "bem de luxo" e descreve sua inteligência como "ativos intangíveis" que são "bons investimentos" que não se degradam. Essas são falas dignas do reality-empreendedorismo tipo "Shark Tank" que poderiam parecer piegas, mas ganham brilho quase obsceno quando interpretadas por um ator com tanto carisma como Pascal. E surge a revelação de que Lucy não é perfeita em suas escolhas, no fracasso de um desses encontros que na aparência nada tinha de errado.

É um chacoalhão na carreira dela, e um alerta.

Há um componente embaçado (e preocupante) em Harry. Por que ele está solteiro? Quem é ele, na verdade? Essas são perguntas que Lucy precisa responder antes da conclusão sonhadora e pungente do filme.

UM FILME PERSPICAZ

Comercializado como comédia romântica, “Amores Materialistas” é filme mais perspicaz e reflexivo do que o gênero comédia romantica sugere e/ou permite suportar.

Esta é uma história sobre valor percebido e o que a sua busca custa a seus personagens – emocional, física e materialmente. Para aqueles que prestam atenção à luz, porém, fica claro no final o que Song valoriza como a narradora das histórias deste filme. Os créditos rolam em um cenário resplandecente com um brilho adocicado, revelando profundidade e doçura que talvez seja a luz mais acolhedora de todo o filme.

A iluminação diz tudo nos filmes de Celine Song. Pelo menos nos dois primeiros.

Agora é seguir essa boa pista e aguardar o que mais virá desta diretora bem valiosa para o cenário opaco do momento hollywoodiano.

* Confira a programação de cinema no site da FOLHA

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