Boa parte do público reclama da qualidade do cinema nacional. Mas, na maior parte das vezes, não teve acesso ao melhor do que está sendo feito atualmente. Quem dos paranaenses pôde ver em tela grande ''Amores'', de Domingos Oliveira, e ''Quase Nada'', de Sérgio Rezende?
Pois bem, esses dois filmes, dois exemplos de um cinema brasileiro possível, já estão nas locadoras. ''Amores'' (1997, 100 minutos) está em DVD pela distribuidora Versátil, e ''Quase Nada'' (2000, 90 minutos) é lançado em vídeo pelo Consórcio Europa e pela Riofilmes.
Apesar de cada diretor ter um estilo próprio, as duas produções trazem algumas semelhanças. Ambos custaram pouco (''Amores'' utilizou escassos R$ 120 mil); apóiam-se em bons roteiros e em ótimas interpretações; falam de histórias brasileiras, em que o público se reconhece na tela; não seguem padrões hollywoodianos e não tentam atrair o público por meio de estrelas globais. Seria essa uma boa fórmula para o cinema brasileiro?
''Amores'' traz personagens em luta contra velhos tabus, fantasmas que representam nossos pequenos dilemas de cada dia. Oliveira, co-autor do roteiro com Priscilla Rozembaum (baseado em peça homônima), interpreta um diretor da TV Globo em crise pelo desprezo profissional e afastamento precoce da filha. A estrutura do filme é simples: os personagens são apresentados e logo desfilam suas preocupações. Certos monólogos evidenciam a influência que Oliveira sofreu de sua passagem pelo teatro e de alguns cineastas prediletos, como Woody Allen.
Com poucos recursos financeiros, o diretor utilizou-se de preceitos defendidos por cineastas dinamarqueses (Lars Von Trier, Thomas Vinterberg), no manifesto recente ''Dogma 95'': câmera na mão, quadros não convencionais, montagem assimétrica, luz natural e interpretação naturalista. A fotografia de Jacques Cheuiche, linda quando em suave vermelho, segue bem os ideais do ''Dogma'' e mostra que essa ousadia em certos quadros vem em boa hora.
''Amores'' acaba confirmando Domingos Oliveira como um autor maduro. Ele que é o responsável por um dos momentos mais tocantes do cinema brasileiro, aquele em que Paulo José recita versos feitos ao corpo de Leila Diniz, em ''Todas as Mulheres do Mundo'' (1966). Em uma só frase, como disse o próprio cineasta, ''Amores'' trata-se de uma discussão sobre a possibilidade do final feliz.
Em sentido inverso, mas com qualidades similares, ''Quase Nada'' mostra três dramas rurais. O fim da amizade entre João e seu compadre; o medo que persegue Ademir; e o trágico amor de Ernani por Glorinha. Como diz Rezende, são personagens que vivem em um ''planeta globalizado, cibernético, virtual, gente simples, vivendo num mundo sem Marx, sem Freud, sem Deus. Seres humanos enrodilhados no labirinto de suas emoções. Homens e mulheres que não conhecemos, tão parecidos a nós mesmos''.
As três histórias são ótimas, mas certamente o espectador não passará impune por duas atuações: as de Augusto Pompeo (João) e de Genézio de Barros (Ademir). Pompeo é ator de teatro e faz pouco filmes. Foi apresentado ao diretor pelo amigo Genézio, que recentemente excursionou pelo Paraná com o espetáculo ''Nazareth & Ernesto...'', dirigido por Marco Antonio de Almeida.
Genézio viajou para a fazenda do cineasta (onde o filme foi rodado) uma semana antes das filmagens. ''Quis conhecer o ambiente do meu personagem, saber como as pessoas que moram ali falam, pensam, sofrem''. Ademir é um ser angustiado, convicto de que será assassinado por um matador que delatou a seu ex-patrão. ''Descobri que o homem que habita essas terras se assemelha aos animais com que convive. Procurei imitar o olhar vazio do boi, um olhar de medo''.
O resultado foi esplendoroso. Há muito não se via um filme brasileiro com tal vigor dramático e tamanha simplicidade. Sérgio Rezende havia incursionado por grandes produções, realizando ''Guerra de Canudos'' e ''Mauá - O Imperador e o Rei'', dois fracassos estéticos. Voltando a uma espécie de cinema artesanal, reencontrou o seu estilo, criando um universo rico em dramaturgia, econômico em palavras e eficaz no visual.
Os dois filmes simbolizam um caminho que o cinema brasileiro teima em não seguir. São filmes baratos, feitos sem a pressão de produtores, com histórias brasileiras e filmadas por um olhar brasileiro. Que olhar é esse? É uma questão mais complexa... mas não há dúvidas de que é esse o caminho de uma autêntica cinematografia brasileira, aquela que nos espelha sem ignorar nossa complexidade.



''Quase Nada'' (BRA, 2000, 90 minutos, Consórcio Europa e Riofilmes), de Sérgio Rezende. Lançamento em VHS. ''Amores'' (BRA, 1997, 100 minutos, Versátil), de Domingos Oliveira. Lançamento em DVD.

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