Amores da noite
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de março de 1998
Zeca Corrêa Leite 
Dana Avalon sonha em encontrar um homem a quem possa amar perdidamenteCaio Fernando Abreu incendiou a literatura brasileira no comecinho dos 80, e todo jovem que se prezasse lia Morangos Mofados. Vítima da Aids, o escritor se foi. Mas os climas de tensão e solidão - rima tão em voga na época e nos contos -, permaneceram em sua obra. Dama da Noite, monólogo interpretado por Gilberto Gawronski, única estréia deste dia no 7º Festival de Teatro deCuritiba, reflete esse mundo descrito por Caio.
Segundo aqueles que assistiram à montagem em outras praças, o programa é imperdível. Dama da Noite é baseada no conto Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, e estava nos planos do autor em montá-lo. Tanto é verdade que nos últimos dias que passou no hospital, em Porto Alegre, falava com Gawronski sobre a necessidade de retomar o trabalho.
Sob o título de Belle de Nuit a peça chegou ao palco em julho de 1996, no festival de teatro de Samary-Sur-Mer; em seguida cumpriu temporada em Lyon. Ainda na Europa, esteve em Londres e no Brasil passou pelo Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Brasília. Chega ao FTC como um dos mais cotados espetáculos.
Dana Avalon gasta seu tempo nas noites, fumando e bebendo, na esperança de encontrar um homem a quem possa entregar o coração. Pueril? No fundo, como todos, Dana quer chegar em casa, deitar no ombro de alguém e ouvir Roberto Carlos, entrega Gawronski.
Enquanto isso não acontece, cigarro e álcool são as armas com que (o travesti? a prostituta? uma mulher?) se apóia. Para vencer as longas e gélidas noites, com suas farpas de segredos, só mesmo antecipando a existência com esses venenos dosados.


