O cardiologista Marco Aurélio Dias da Silva é enfático: ‘‘Quem Ama Não Adoece’’. Este é, inclusive, o tema de seu mais recente livro, lançado pela editora Best Seller. Segundo diz, hoje os médicos perderam o hábito de conversar com seus pacientes, e a figura do ‘‘médico de família’’ não deveria ter sido esquecida. ‘‘É necessário descobrir o que há por trás das doenças; na maioria das vezes, a causa é emocional. E só se descobre isso conversando’’, explica.
Como o senhor chegou à conclusão de que quem ama não adoece?
Marco Aurélio Dias da Silva - Observando o comportamento dos pacientes e lendo sobre o assunto, comecei a perceber que pacientes que chegavam com queixas no coração apresentavam um histórico que antecedia à doença. O problema cardíaco era nada mais do que uma forma de exteriorização e escape para o sofrimento.
Reflexo de carência afetiva?
Arquivo FolhaMarco Aurélio Dias da Silva: ‘‘As pessoas precisam ser e estar otimistas, abertas para o mundo’’Silva - O amor a que me refiro não é o amor por uma pessoa, não é o erótico, nem o romântico. Estes são apenas aspectos do amor. Me refiro mais a um estado de espírito, paz interior. As pessoas precisam ser e estar otimistas, abertas para o mundo, de uma maneira geral, enfim, ter uma postura desarmada. Quem conseguir atingir este estágio consegue escapar de doenças graves. Sobre isso, destaco os seguintes itens:
1 - Psiquiatras já publicaram que os loucos que perderam o vínculo com a realidade, como foi o caso de Napoleão Bonaparte, parecem ter saúde de ferro. É como se perdessem a necessidade de adoecer.
2 - Quando os neuróticos graves manifestam uma doença orgânica melhoram o comportamento. É como se a doença fosse equivalente a exteriorização do sofrimento, um sintoma substituiria o outro. Por exemplo, quando aparece uma úlcera, o neurótico melhora da depressão e vice-versa.
3 - É raro se observar duas doenças graves, como o câncer e infarto numa mesma pessoa.
4 - A miocardiopatia alcoólica é uma das doenças do coração, e suas vítimas, quando recuperadas do problema cardíaco, normalmente conseguem deixar o álcool. Eles não precisam mais da bebida. Isso porque o sofrimento, a doença do corpo, já assumiu uma forma de exteriorização, e de se punir também. O sofrimento é proveniente, também, de uma aceitação inconsciente da pessoa.
Isso ocorre com crianças também?
Silva - A criança que não se sentiu amada tem isso no seu inconsciente. Para ela, isso ocorreu porque ela não presta. A criança se torna um ser humano divido entre o ‘‘eu’’ real e o ideal. Ou seja, o que gostaria de ser e o que tenta fingir que é. No seu íntimo, a pessoa sabe a incoerência que está acontecendo, que não é o real. A tendência de odiar o ‘‘eu’’ real, atrapalha a construção do ‘‘eu’’ ideal e inicia um processo de autodestruição. Então, a pessoa passa a se punir desenvolvendo algum tipo de doença, muitas vezes como forma de manipulação.
Esta receita de saúde que você transmite seria o caminho da medicina moderna, ou seja, estimulando a criação de laços mais profundos de amor?
Silva - Eu não tenho dúvida que sim. Basta fazer uma distinção com quem ainda não está doente, preservando a felicidade. Só é feliz quem consegue amar. Acho que todo mundo deve perseguir a felicidade, e essa busca tem a ver com a revisão de valores. Isso é bem fácil no discurso, não na prática. Mas não se deve preocupar com a linha de chegada, no livro dou a receita do ser humano saudável. Aquela receita ideal ninguém vai conseguir, basta tentar sinceramente, perseguir o modelo apontado. O indivíduo vai errar muito, só que o fato de tentar já beneficia bastante. Quem se põe nesse caminho entra em uma rua de mão dupla. A partir do momento em que ele passa a se sentir melhor e fazer com que as pessoas se sintam melhor ao seu lado, começa a receber amor em troca. Entretanto, se a pessoa começa a dar programando receber, provavelmente não vai receber, o troco vem como consequência.
Como o senhor trabalha isso no seu consultório?
Silva - Eu procuro o contato humano mais próximo possível, inclusive do ponto de vista do contato físico. O que, na minha opinião, o ser humano mais necessita. Felizes são os veterinários que podem afagar seus pacientes sem repressão e sem ser mal-interpretados. Procuro me cercar desse componente de afeto, abraçando, cumprimentando... Durante a consulta também procuro detectar sintomas que podem revelar dores de amores, além de medir o grau de felicidade do paciente, de sua família, enfim, saber se a doença vem como consequência de outro sofrimento.
Seria mais ou menos uma consulta como as que aconteciam antigamente, quando o médico tratava de várias gerações e sabia tudo o que se passava na família?
Silva - O avanço tecnológico afasta cada vez mais o médico do objetivo maior que é a relação humana que o atendimento médico exige. São coisas simples, mas que não são postas em prática. Era exatamente o que o médico do passado fazia, isto é, deixar o paciente falar, pois é através de uma conversa que se pode extrair informações muito importantes dentro do contexto apresentado. Hoje, a maioria dos médicos tem uma visão mercantilista, querem prestígio, poder. A preocupação com o poder também contamina os médicos, muitos só pensam em ganhar dinheiro. É preciso lembrar que a medicina também é uma profissão, mas não somente isso, deveria ser um exercício da filosofia de vida. Lógico, todo o mundo tem de viver, e para isso é necessário ter dinheiro, só que não se pode perder o caráter solidário.
Por defender essas idéias o senhor já foi chamado de poeta ou sonhador?
Silva - Não diretamente, mas pelas costas sim. Eu encaro isso numa boa, estou bastante consciente de que pôr o discurso em prática não é fácil.
A falta de amor seria um fator externo ou interno para desencadear doenças?
Silva - No começo, na origem de tudo - quem não consegue amor, quem sabe que não foi amado - é externo, porque a rejeição vem de fora para dentro. Depois o processo é interno. A doença está ligada a muitos fatores, alguns difíceis de controlar. Volto a dizer que o aspecto emocional é extremamente importante, por isso merece atenção especial.
Que grau de desequilíbrio emocional poderia resultar em doenças?
Silva - O grau já é mais complicado medir. É difícil medir ou converter em números uma emoção. Posso medir enzimas, não tristeza. Não tem como quantificar o sentimento das pessoas.
O que é pior para o coração: o estresse, o sedentarismo ou a falta de amor?
Silva - A literatura médica diz que são três os principais fatores de risco para doenças coronarianas: hipertensão, fumo e colesterol elevado, em quarto lugar está o estresse. Para mim é a infelicidade que leva a esses fatores citados como desencadeadores. A infelicidade e o desamor estão, a meu ver, em primeiro lugar.
Muitos especialistas dizem que as pessoas apresentam como herança genética tendências para o mau humor, para a felicidade e para uma infinidade de doenças, o senhor concorda? E que peso isso pode ter na vida de uma pessoa?
Silva - Concordo em parte. Defendo a tese que a doença é o resultado da conjugação entre a carga genética com a qual a pessoa nasceu e os fatores de risco aos quais ela se expõe ao longo da vida. Modulando a esta conjugação, a qualidade da interação que a pessoa mantém com o meio ambiente. Mas não apenas como as condições físicas, de clima, moradia, transporte e alimentação, também, e talvez sobretudo, o meio ambiente social. O que vem a ser o grau de adaptabilidade da pessoa às normas vigentes na comunidade na qual ela vive, bem como a qualidade das relações que consegue manter com outras pessoas. Na base dessa conjugação e interação, acredito que haverá sempre, seja como coadjuvante seja como determinante, algum grau de sofrimento psicológico e emocional.
Especialistas dizem que a depressão abre portas para muitas doenças, como é este processo no organismo das pessoas?
Silva - Principalmente para o câncer. Hoje já podemos contar com uma especialidade médica chamada psicoimunologia, que comprova com excelência que quando a pessoa está deprimida seu sistema imunológico de defesa também fica deprimido. Ela, então, abre as portas para doenças infecciosas em geral e para outras, como o câncer.
Muitas pessoas dizem ter uma vida absolutamente feliz e têm câncer, por exemplo. A doença pode ser originada em momentos de profunda tristeza?
Silva - Será que foram ou são felizes mesmo? Quem tem câncer geralmente é uma pessoa muito boa, muito afável. Elas são tão boas, mas ninguém sabe como estão por dentro, como ela reprime os seus sentimentos e passa isso para o exterior. Na verdade, não são farsantes, só não sabem como lidar com as emoções, boas e ruins.
O mesmo pode acontecer com relação às pessoas que são muito frustradas profissionalmente?
Silva - Sem dúvida. O ambiente profissional é o lugar onde mais se reprime as emoções. É no trabalho que se vive as emoções mais fortes, não dá para simplesmente se ligar ou desligar, o trabalhador vive as emoções do emprego durante as 24 horas.
Qual conselho o senhor dá para que as pessoas melhorem suas vidas?
Silva - O primeiro passo é fazer uma revisão interior e de comportamento e se esforçarem para mudar o que está errado. Se for o caso, que recorram a um psicoterapeuta. É importante tentar entender que pedir ajuda de um profissional não é sinônimo de loucura ou fraqueza.
• Marco Aurélio Dias da Silva é médico do Instituto Dante Pazzanese e presidente do Fundo de Pesquisas Científicas - Funcor. E autor dos livros: ‘‘Bate Coração’’, ‘‘Saúde e Qualidade de Vida no Trabalho’’ e ‘‘Quem Ama Não Adoece’’, todos pela editora Best Seller. Telefone: (011) 542-5987/8911

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