Os anos 60 foram explosivos em todos os sentidos, especialmente no que se referia à tensão política. Esses ares rarefeitos acabam por entrar na vida de um casal, o jornalista Lúcio Paulo Freitas e Sílvia, que estão juntos há oito anos. Enquanto o clima geral é de terror, eles vão dissecando também suas vidas numa longa noite de reflexão. O encontro dessas personalidades num cruzamento de dor acontece na peça ‘‘Mão na Luva’’, cartaz do Teatro Fernanda Montenegro neste final de semana. Maria Padilha e Tuca Andrada vivem os dois personagens, dirigidos por Amir Haddad.
O texto é de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, um dos grandes dramaturgos brasileiros, que só não construiu uma obra mais extensa porque o câncer levou-o ainda muito jovem. Tinha 38 anos. Mesmo assim, aquilo que escreveu está entre os melhores do teatro nacional. ‘‘Rasga Coração’’ e ‘‘Chapetuba F.C.’’, por exemplo, são frutos de seu talento.
‘‘Mão na Luva’’ permaneceu inédito durante anos. Só foi descoberto em 1981, sete anos após de sua morte, quando sua mulher Maria Lúcia Vianna estava vasculhando os baús da família. Montado em 1984, recebeu do crítico Aderbal Freire-Filho o seguinte comentário: ‘‘Um apaixonadíssimo poema de amor, recitado através de diálogos de um lirismo desenfreado, às vezes singularmente pouco submisso às normas do raciocínio, aspecto surpreendente em se tratando de um dramaturgo que na época questionava duramente a exaltação do irracionalismo no teatro dos anos 60’’.
Originalmente ‘‘Mão na Luva’’ foi intitulado de ‘‘Corpo a Corpo’’ que, aliás, foi nome de outra peça – um monólogo – que marcou os anos 70, com estrondoso sucesso na interpretação de Juca de Oliveira.
‘‘O texto de Vianinha é extremamente bem escrito. É uma prosa poética, difícil de falar, mas fascinante, e é muito bom a gente falar um bom português’’, comenta a atriz Maria Padilha. Ela fez poucas montagens de autores nacionais e ‘‘Mão na Luva’’ está sendo uma descoberta. ‘‘Fiquei impressionada com esta dramaturgia rica dos anos 60, da qual eu não tinha tomado conhecimento por ignorância ou curiosidade de ler’’.
Tuca Andrada, que vive um jornalista de projeção repentina, ao fazer uma matéria enaltecendo a Light, a pedido do editor, comenta a riqueza do personagem que embora faça esse jogo, quer fundar um jornal alternativo. ‘‘No espetáculo, a questão ética está muito acima das questões políticas ou partidárias’’.
Serviço: ‘‘Mão na Luva’’, peça de Vianinha (Oduvaldo Vianna Filho), com Maria Padilha e Tuca Andrada. Direção de Amir Haddad. Teatro Fernanda Montenegro (Shopping Novo Batel, fone 224-4986), hoje às 21 horas. Amanhã às 20 horas. Preço único: R$ 30,00.

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