A macrossérie ‘‘Aquarela do Brasil’’, que estréia hoje, é sem dúvida um projeto ousado. Prevista para durar 68 capítulos, ela vai usar a Segunda Guerra Mundial e o drama dos judeus como pano de fundo para o romance vivido entre uma cantora de rádio e um oficial do Exército. Com orçamento semelhante ao de ‘‘A Muralha’’ – R$ 220 mil reais por capítulo –, ‘‘Aquarela do Brasil’’ se passa de 1943 a 1950 e vai carregar nas tintas no glamour dos anos 40. Na verdade, um período de fortes contradições. Ao mesmo tempo em que encerrava o ciclo da ditadura do Estado Novo, com o presidente Getúlio Vargas, viveu o auge da Era do Rádio, pois após a proibição dos cassinos, os artistas dos ‘‘night clubs’’ seguiram naturalmente para os programas de rádio. Assinada por Lauro César Muniz, a macrossérie conta com a direção de Jayme Monjardim e tem como protagonistas Maria Fernanda Cândido, Edson Celulari e Thiago Lacerda. ‘‘O personagem é o mais importante da minha carreira e quero me sair bem. Estou me dedicando de corpo e alma ao projeto’’, garante Maria Fernanda.
A escolha de Thiago Lacerda e Maria Fernanda para os papéis principais é, sem dúvida, devido ao sucesso que os dois alcançaram em ‘‘Terra Nostra’’. Mas o romance entre os personagens só acontece após o envolvimento de Isa Galvão, papel de Maria Fernanda, com o Capitão Hélio, interpretado por Edson Celulari. Por volta do capítulo 30, o capitão segue com a Força Expedicionária Brasileira para os campos de batalha da Itália e deixa o caminho livre para o pianista Mário, personagem de Thiago Lacerda. ‘‘O Mário é mais complexo que o Matheo e, por isso, exigiu uma preparação maior’’, admite Thiago, numa referência ao seu papel em ‘‘Terra Nostra’’.
Edson Celulari também mal encerrou sua participação em ‘‘Vila Madalena’’ e já foi convocado para ‘‘Aquarela do Brasil’’. ‘‘Mesmo cansado, não quis desperdiçar a oportunidade de fazer um papel tão rico como este. O Brasil precisa de heróis como o Capitão Hélio’’, afirma Edson. Na verdade, ‘‘Aquarela do Brasil’’ tem um elenco recheado de atores experientes. Entre eles, Cláudio Marzo e Nicete Bruno, que farão os pais de Hélio, e Eloísa Mafalda, que será a dona da pensão carioca em que Isa vai se hospedar. O veterano Othon Bastos fará o comandante de Hélio e Odilon Wagner será o dono da fictícia Rádio Carioca. Alguns personagens servirão para mostrar a vida noturna do Rio. É o caso da ex-vedete Velma, vivida por Ângela Vieira, que trabalha como assistente do radialista Garcia, interpretado por Gracindo Jr., dono do ‘‘night club’’ Havana, que servirá de palco para o encontro entre o pianista Mário e a cantora Isa Galvão. Após interpretar a megera Janete em ‘‘Terra Nostra’’, a atriz Angela Vieira está eufórica em fazer mais um trabalho de época. ‘‘Além de interpretar personagens ricos, as produções de época são uma verdadeira aula de História’’, vibra a atriz.
A macrossérie começa quando Isa Galvão vive na fictícia cidade interiorana de Roseiral, vizinha a Barra Mansa e Volta Redonda. Ela mora com os pais, interpretados por Bete Mendes e Sebastião Vasconcellos. Como o personagem Felipe, tio da moça vivido por Marco Ricca, é preso e levado para o Rio de Janeiro acusado de espionagem, Isa Galvão decide unir o útil ao agradável: tentar ajudar o tio na cadeia e buscar um emprego como cantora na cidade grande.
‘‘Aquarela do Brasil’’ também terá um núcleo em uma favela, vista na época como lugar de gente alegre e berço do samba. Lá, estarão, entre outros, Bemol, vivido por Norton Nascimento, compositor e amigo de Mário, e Neide, interpretada por Adriana Lessa, uma mulher negra e corajosa que luta com dificuldade para criar os dois filhos. Já para ilustrar o clima criado pela Guerra, alguns personagens mostrarão o cotidiano dos judeus, que se refugiaram no Brasil para escapar do Holocausto. Entre eles, destaca-se Bella, interpretada por Daniela Escobar. A atriz emagreceu 10 quilos para viver a personagem e mergulhou fundo na história do nazismo. ‘‘Li a maioria dos livros sobre Hitler e assisti mais de 20 filmes. Não perderia esta personagem por nada’’, confessa Daniela.
Assim como ‘‘Terra Nostra’’, a macrossérie ‘‘Aquarela do Brasil’’ vai utilizar imagens de documentários de época. O objetivo do diretor Jayme Monjardim é ilustrar os fatos marcantes do período. Um exemplo é a construção da Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, que fez com que a região de Volta Redonda se transformasse em uma Zona de Segurança Nacional. A usina vinha sendo construída como parte do acordo entre Getúlio Vargas e Franklin D. Roosevelt, presidente norte-americano, para que o Brasil apoiasse os Aliados. Outras imagens exploradas vão ser as que mostram os primeiros contingentes do Exército Brasileiro partindo para a Itália. ‘‘Espero que a macrossérie sirva para limpar a imagem dos combatentes brasileiros, que lutaram como heróis na Itália e até hoje não são reconhecidos pela população’’, reclama o ex-combatente Oswaldo Hanna, consultor da macrossérie.
A diferença de ‘‘Aquarela do Brasil’’ para ‘‘Chiquinha Gonzaga’’, minissérie também produzida por Lauro César Muniz e Jayme Monjardim, é que estas imagens de documentários servirão como parte do enredo e aparecerão dentro do contexto da trama. Outra diferença também é que Jayme Monjardim vai encerrar cada capítulo com o que está sendo chamado de ‘‘Cinejornal’’. É uma espécie de informe de um minuto com as notícias mais importantes do momento em que se passa a trama.
Em preto e branco, o ‘‘Cinejornal’’ relembrará as notícias do período e terá narração fiel ao estilo da época. A macrossérie ainda vai contar com imagens de arquivo do Holocausto nazista e dos campos de concentração. ‘‘É fundamental mostrar o terrível extermínio dos judeus. A humanidade não pode esquecer jamais este genocídio’’, afirma o consultor Aleksander Laks, presidente da Associação dos Israelitas e um dos sobreviventes do Holocausto.

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