‘‘Are you crazy?’’. A pergunta (você é louco?) é metralhada pelo dramaturgo espanhol Fernando Arrabal (1932), aleatoriamente, àqueles que cruzam seu caminho, em Paris, New York ou São Paulo. Ninguém fica indiferente ao questionamento, porque ele fica sem resposta. Ao se cruzar com a figura de Arrabal, um sujeito baixinho, sempre por fazer a barba, de expressivos olhos azuis, também não se fica indiferente. Nem tampouco diante de sua obra. O grupo de teatro Boca de Baco ouviu o eco dessa pergunta inicial e, corajosamente, decidiu pela montagem de um dos textos de Fernando Arrabal: ‘‘Fando e Lis’’ (1955). A estréia acontece hoje, às 21 horas, no Teatro Núcleo I, em Londrina. A temporada de amor e barbárie ocupa o espaço intimista até o dia 29 de julho.
A última montagem do grupo foi ‘‘Abajur Lilás’’, em 1998, texto consagrado do enfant terrible da baixada santista, Plínio Marcos. Depois de 11 anos de estrada, o Boca de Baco arriscou. Arcou com os tributos da importação do diretor Luiz Valcazaras, de São Paulo – Londrina, terra de atores órfãos. Valcazaras aceitou mergulhar no universo de Fernando Arrabal e se instalou em Londrina. Desde o mês de abril, o diretor repassa os preceitos do processo de criação do Núcleo de Investigação Teatral (NIT). Mas garante que a montagem de ‘‘Fando e Lis’’ não é resultado desse processo. Partindo do princípio que todo bom ator é um bom contador de histórias, o processo desenvolvido por Luiz Valcazaras busca potencializar essa qualidade, transformando-o em contador de imagens.
Na história de Arrabal, Fando (Beto Passini) se dirige a cidade de Tar, empurrando Lis (Jackeline Seglin) numa cadeira de rodas. Nessa trajetória, eles se deparam com três homens: Toso (Nilvaldo Lino), Namur (Paulo Munhoz) e Mitaro (Walter Balthazar), que também seguem rumo a Tar. A bússola de todos é o vento. O veredito impiedoso do autor é nunca sinalizar geograficamente onde fica Tar. Na trajetória, Fando demonstra afeição e hostilidade com sua parceira dependente. Num determinado momento, o caminho do casal se cruza com o dos andarilhos.
Fando caminha pelos extremos, expressando sua personalidade maníaco-depressiva. Ele fragmenta um discurso amoroso terno e adiciona progressivamente doses de sadismo até o destino funesto. No espectro sentimental que salta da afeição à hostilidade, o corpo traído de Lis (inválida, não há como fugir) se reduz a um simples mecanismo para o parceiro. ‘‘Reconheço as relações das pessoas no texto. Já os personagens são comuns. Isso reafirma o absurdo e evidencia esse estranhamento. Durante a montagem, percebi a totalidade do ser humano presente no texto, com seus defeitos e qualidades’’, afirma o diretor.
O Boca de Baco solicitou ao jornalista Marcos Losnak a tradução do texto. Valcazaras percebeu a força moto-contínua na engenharia dramatúrgica de Arrabal e sugeriu o deslocamento de um trecho final para o início da peça. ‘‘Apesar de ter enxugado o texto para deixar a montagem mais macia e ser mais visual, a essência não foi alterada’’, garante Losnak. O autor pincelou os três andarilhos com tintas clownescas e na montagem londrinense eles são catadores de papel. As intervenções do trio evidencia a infantilidade de inúmeros personagens de Arrabal. Pode-se considerar os três como remanescentes do coro grego. O trio funciona como espectador-juíz e também participa da ação.
A montagem concebida por Luiz Valcazaras ressalta a austeridade das relações. A leitura cênica recebeu uma concepção mais onírica e imagética. No cenário, o chão forrado de pedra brita (11 toneladas) comporta dois bancos, o carrinho dos catadores e alguns tocos de madeira. Os figurinos são praticamente monocromáticos, desbastando qualquer alegoria. O lugar em que eles se encontram é suspenso no tempo, próprio do universo fabular. O público pode não se sentir reconfortado com o universo de Arrabal, e segundo Valcazaras, ‘‘esse é um espetáculo que incomoda’’. A peça é um alfinete na bolha.

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