Amor e infidelidade
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
Não é a espécie de história do tipo rapaz encontra garota e rapaz conquista garota, diz o diretor Sydney Pollack sobre o romance nada comum contado em Destinos Cruzados (em lançamento nacional a partir de hoje). Estas são duas pessoas que nem mesmo querem se encontrar. Toda vez que ele olha para ela pensa no marido dela na cama com a mulher dele. É como óleo e água, e ainda assim há algo de maravilhoso sobre essa combinação. Obstáculos são as coisas que realmente constroem love stories.
Harrison Ford é Dutch Van Den Broeck, detetive da Divisão de Assuntos Internos em Washington. Kristin Scott-Thomas é Kay Chandler, deputada por New Hampshire em campanha para a reeleição. Eles se conhecem em circunstâncias insólitas. Penosas. E irônicas: o avião que levava a mulher de Dutch e o marido de Kay sofre um acidente. Ninguém sobrevive. Pior: nem mesmo a reputação dos cônjuges desaparecidos na tragédia. Para acrescentar maior dor ao sofrimento, os vivos descobrem que os falecidos, encontrados lado a lado entre os destroços, tinham uma ligação bem mais forte, aquilo que a crônica da infidelidade chama de affair. Magoados, arrasados, confusos, traídos, com raiva mas...vivos. O suficiente para fazer surgir um romance inesperado, complicado, este mesmo que justifica os Destinos Cruzados do título.
Da data de sua publicação, em 84, até o lançamento em 8 de outubro nos Estados Unidos, a novela Random Hearts, de Warren Adler, quase rende outra novela paralela. Foram tantas as negociações, os interesses, as manipulações, as reservas de direitos, as intenções de compra, os adiamentos e protelações que Adler resolveu recentemente abrir o jogo e contar tudo, numa espécie de testemunho-desabafo sobre a real natureza do negócio das adaptações de obras literárias. Depois de muita espera e inúmeros pré-tratamentos do roteiro por várias mãos, finalmente o autor viu seu best seller deslanchar através do empenho executivo e artístico de Harrison Ford, que convocou Sydney Pollack para dirigir o projeto e sugeriu o nome de Kristin Scott-Thomas para o papel de Kay - os dois estavam escalados para atuar em Age of Aquarius, que não deu certo.
Alguns ingredientes autorizam expectativa acima da média. Quem assina o roteiro é Kurt Luedtke, que já trabalhou com Pollack em Ausência de Malícia e Entre Dois Amores, que lhe valeu um dos cinco Oscar dados ao filme em 85. A dupla Ford-Pollack já esteve reunida na refilmagem discreta do clássico Sabrina. Pollack, nas horas vagas, gosta de estar na frente das câmeras: entre suas atuações, digamos, mais memoráveis, está o incrédulo amigo de Dustin Hoffman em Tootsie e o amigo milionário e com estranhos hábitos no recente De Olhos Bem Fechados. Kristin Scott-Thomas, inglesa bela e charmosa ainda recolhendo merecidos dividendos por O Paciente Inglês, investe seletivamente na atual vertente americana de sua carreira, inaugurada via Robert Redford em O Encantador de Cavalos.





