Amor até o fim
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de janeiro de 2002
Francelino França 
Tudo o que uma voz pôde cantar e uma vida de 36 anos pôde conhecer, os fãs de Elis Regina tentam compartilhar. Depois de sua morte inexplicável, o coração aperta quando janeiro vem chegando. O fatídico dia permanece tatuado na memória. Na tarde de 19 de janeiro de 1982, aos 14 anos, João Henrique Bernardi chegou da escola e ligou a tevê. Ao ouvir a manchete do Jornal Hoje sobre a morte de Elis Regina não conseguiu acreditar na notícia. Eu e minha irmã ficamos ouvindo Saudades do Brasil. Foram momentos deprê, relembra Bernardi, 33, ator e diretor do Grupo de Teatro Fase III, em Londrina.
O acervo fonográfico completo foi batalhado arduamente. Meu cunhado inventava alguns trabalhos para eu fazer, porque eu queria comprar um vinil da Elis, relembra. O Fino da Bossa foi comprado com os últimos trocados em São Paulo. Ficou sem dinheiro para comer. Elis tinha uma necessidade enorme de resgatar o Brasil. Era a voz do inconsciente coletivo do País, destaca.
Em 1987, João Henrique e dois amigos percorreram a paulicéia onde Elis cantou, viveu, se consagrou e morreu. Os três jovens do interior se sentiram próximos da cantora, como nunca. Conheceram o Teatro Bandeirantes, palco de glória e despedida de Elis. Um desses integrantes da odisséia ao pó da estrela mora hoje em La Coruña, Espanha. Devanil Giroto, 37 anos, levou na bagagem o acervo sobre a cantora. Recentemente mostrou a uma colombiana o show Elis em Montreux, que se apaixonou pela gaúcha. Elis me acompanha aqui na Espanha. Sempre revejo o álbum de fotos dela, disse por telefone à Folha2.
Janeiro chegando, a carência se instala. É tempo de relembrar Elis na casa da funcionária pública Maria Dulce Ferreira, 47 anos. Eu estava trabalhando na recepção do Hopital Universitário naquela terça-feira. Meu irmão me ligou: Du, você viu quem morreu?. Disse não, como se já soubesse. É Du, a Elis morreu. No departamento de Recursos Humanos ouviu da chefe: Ela não era tão importante. Volte ao trabalho. Para mim foi uma catástrofe. Fizemos um velório da Elis na minha casa.
Dulce conheceu musicalmente Elis, quando roubou da irmã um disco da cantora. Nem possuía vitrola para tocá-lo, em 1966, quando residia em Centenário do Sul. Depois do inesquecível verão de 82, passou a pesquisar sobre a vida pessoal da estrela. Minha relação é de idolatria, reitera. No show Essa Mulher , no Cine-Teatro Ouro Verde, conseguiu um troféu: o autógrafo. Não dava conta do abraço, nem pronunciei uma palavra, revela.
Em São Paulo, um dos fãs mais dedicados de Elis Regina, Maurani Rodrigues, 55, se transformou num colecionador e consultor sobre furacão Elis. Frequentou o antológico Fino da Bossa, na fase do cabelo duro de laquê, gesto firme e braço forte e garante que assistiu a todos os shows de Elis Regina. Falso Brilhante marcou presença na platéia por cinco vezes, contou por telefone à Folha2. Sobre 19 de janeiro, relembra: O velório me abalou bastante. Entrei, passei, olhei Elis e saí. Era madrugada.
Em sua casa, instalou o Beco Elis, um espaço em que Elis é cultuada. Dentre as raridades, há um vídeo de Elis no Japão, em que ela arrisca algumas palavras em japonês. Elis deixou a voz, insubstituível. O que ela gravou fica como interpretação definitiva., destaca. Maurani dedica todo seu tempo à divulgação e preservação da memória da maior cantora do Brasil. Desde 1982, comparece todos os anos ao Cemitério Morumbi, onde Elis está enterrada.
Serviço: Em Londrina, os shows em homenagem à Elis Regina acontecem no Bar Valentino, às 21h30.
- Elda Assony e banda (dia 20)
- Banda Wave (dia 23)
- Gisele Almeida e convidados (dia 24)
Elis no mundo virtual
- elisreginavive.cjb.net
- elis.dk3.com
- elisregina.cjb.net


