ReproduçãoDetalhe de obra de Dalí: para o biógrafo Ian Gibson, pintor expressava com vergonhosa veemência a sexualidade
Segundo Gibson, o pai de Dalí teria mostrado a um filho, horrorizado, um livro ilustrado sobre os males das doenças venéreas. ‘‘Ele nunca superou esse horror do contato físico e da impotência; mas eu também acredito, como comprovei conversando com seus amigos, que Dalí tinha fortes tendências homossexuais, o que não conseguia aceitar de forma alguma’’. O que o teria afastado do grande amigo de sua vida: o poeta Federico Garcia Lorca.
‘‘O encontro entre esses dois jovens foi fundamental para ambos e Dalí dizia que, além de Gala, Lorca foi o seu maior amigo’’. No entanto, ao ver-se assediado pelo grande amigo, o pintor resolveu distanciar-se. ‘‘Lorca amava Dalí que, assustado, ao se ver tocado em suas tendências homoeróticas, fugiu’’.
Gibson nega as versões maldosas, que falam de um ruidoso ‘‘ol钒 emitido por Dalí ao saber do fuzilamento do seu antigo companheiro pelos fascistas espanhóis. ‘‘Ele foi mal interpretado, pois, ao saber que Lorca fora assassinado, lembrou-se da obsessão do amigo pela morte, o que associou ao momento nas touradas em que o toureiro enfrenta um instante que pode ser fatal’’, explica. ‘‘Para ele, o poeta morrera, de certa forma, feliz, por ter ido em direção ao fim que previra para si mesmo, várias vezes, em muitas das conversas que tiveram’’, explica.
Dalí podia parecer, mas não era tão louco assim. ‘‘Foi um choque intenso para ele descobrir casos de suicídio de parentes próximos, acometidos de surtos paranóicos e, ao perceber em si sintomas do mesmo mal, resolveu que precisava achar um método de defesa’’, fala Gibson. ‘‘Dalí acreditava que, fingindo-se de louco, isso o impediria de ficar efetivamente doente, acrescentando essa nova farsa à sua já complexa persona’’. Juntou a tudo, também, leituras ávidas de Freud, que descobriu nos anos 20, quando as suas obras completas foram traduzidas para o espanhol.
‘‘Ele tentou encontrar a cura de sua vergonha nos escritos e, mais tarde, acabou usando esses estudos freudianos para substituir suas experiências na criação de obras surrealistas que, se perdiam em espontaneidade, ganhavam em qualidade técnica’’, diz. ‘‘Com a ressalva das obras de maturidade, que, no geral, são de terceira categoria’’, avalia. Para o biógrafo, o fim de Dalí foi patético. ‘‘Vítima de sua máscara, que o impediu de crescer e se desenvolver como um adulto, ele se perdeu num egocentrismo monstruoso e num oportunismo indigno de seu talento anterior’’, resume.
Vendendo folhas em branco com a sua assinatura, o pintor chegou ao mais tênue limite da indignidade artística. ‘‘É algo imperdoável, ainda que se possa atenuar a sua atitude torpe com a desculpa de que ele, na verdade, divertia-se em ver as pessoas idiotizadas, comprando papéis que lhe rendiam dinheiro rápido e fácil’’, arrisca Gibson. ‘‘Por isso, essa parte de sua vida não me interessou tanto ao escrever essa biografia, pois é triste ver um talento jogado fora, perdido em comercialismos e falta de imaginação, tão distante do pintor interessante dos anos de surrealismo’’. O fim da vida vergonhosa de Salvador Dalí.(C.H.)
Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar os textos de Marcos Losnak.

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