Agora que os brasileiros estão sendo presenteados com uma excelente safra de filmes nacionais, o diretor Helvécio Ratton apresenta seu mais recente trabalho. ‘‘Amor & Cia’’ já chega aos cinemas como vencedor no 31º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com os prêmios de Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Direção de Arte.
Baseado na novela ‘‘Alves & Cia’’, de Eça de Queiroz, ‘‘Amor & Cia’’ estréia amanhã nos cinemas Paramount-Universal. O diretor e a atriz Patrícia Pillar estiveram em Curitiba falando sobre este trabalho que além do roteiro tem outras histórias de bastidores.
No Brasil de fins do século 19, o rico comerciante Godofredo Alves descobre sua amada esposa Ludovina nos braços de seu sócio Machado. A partir daquele instante, o mundo de Alves desaba e sua existência se transforma num inferno.
‘‘Amor & Cia’’ conta, com bom humor, a história de um homem traído pelas pessoas em quem mais confiava. Um homem atormentado por um dilema. O que é mais importante na vida, lutar por uma paixão ou defender a própria honra?
Narrado em tom de comédia fina, ‘‘Amor & Cia’’ é produzido por Simone Magalhães Matos e tem em seu elenco Marco Nanini, Patrícia Pillar e Alexandre Borges, direção de arte de Clóvis Bueno e trilha sonora de Tavinho Moura.
Filmado em setembro e outubro de 1997 em São João del Rey (MG), ‘‘Amor & Cia’’ conta uma história de amor e traição que poderia se passar em qualquer lugar e em qualquer época.
Reconhecendo um pouco de Capitu, do livro Dom Casmurro de Machado de Assis, a atriz fala do seu personagem Ludovina. ‘‘O filme não deixa claro o enigma de Ludovina e isso realmente tem uma intersecção com a Capitu. Mas isso não foi proposital, mas sim a metáfora.’’
Veja a seguir os principais trechos da entrevista de Helvécio Raton e Patrícia Pillar:
Mesmo ambientado no século passado, porque optou-se por um marido nada machista?
Helvécio Ratton - Pelo contrário ele (Godofredo) é um homem moderno. Se a gente pensar em histórias de triângulo amoroso desse século, são todos com desfecho extremamente trágico. No século passsado, se esperava que o homem traído tivesse alguma solução violenta para resolver a situação. Mas o que me encantou muito na história do Eça é que o Godofredo com todo o espírito burguês, no fundo acabava ouvindo os próprios sentimentos de que queria a Ludovina, acima de qualquer coisa.
Como se deu a escolha da novela de Eça de Queiroz?
Helvécio Ratton - Um amigo me falou: leia essa novela do Eça. Sempre achei Eça um escritor maravilhoso mas nunca havia lido ‘‘Alves & Cia’’. Fiquei encantado com a forma que ele contava a história, que apesar de ser muito universal, percebi que poderia adaptá-la muito facilmente para o Brasil.
São João del Rey foi o cenário ideal?
Helvécio Ratton - A cidade foi construída no século 19 e tem a base arquitetônica ideal - o que é um desafio, quando não se pode construir uma cidade cenográfica - mas conseguimos criar uma atmosfera de época. Eu me empolguei com a história e chamei a Patrícia - foi a primeira a ser convidada - que me ajudou a trazer o Nanini e o Alexandre e a gente foi conversando muito durante a construção do filme.
O filme será lançado também em Portugual?
Helvécio Ratton - Com co-produção portuguesa será lançado também lá, mas ainda não acertamos data. Gostaríamos de fazer lançamentos simultâneos mas é impossível. O Brasil é muito grande e a gente vai começar a viajar ficando um dia em cada cidade.
Você já pensou em concorrer ao Oscar, com esse filme?
Helvécio Ratton - Os prêmios em Brasília foram ótimos, criam uma visibilidade. Mas sempre me preocupo em primeiro lugar com o público. Nos filmes que eu fiz, se têm uma marca comum, é o de buscar emoções na platéia. Acho que o grande desafio do cinema brasileiro é a conquista do público. O fundamental é conquistar o coração das pessoas. Gosto de histórias que me envolvam, me emocionem.
Patrícia Pillar - Nos filmes atuais, às vezes eu sinto que tem uma busca por alguma coisa formal, exagerada e que torna o fato frio. Mesmo no teatro há uma tendência de mostrar alguma coisa autoral, de que tem de ser diferente, moderno e isso esfria. Como os conceitos estão inseridos na história não há a participação do público. A linguagem do ‘‘Amor & Cia’’ é sutil, delicada e não deixa o público à parte.
A sutileza pode ser percebida em outras ocasiões?
Helvécio Ratton - A linguagem do cinema é muito sofisticada mas não aparente. Há um trabalho por trás desse filme muito grande, com mais de trinta pistas de som rolando. Há toda uma sutileza de onde está a voz, de movimento de câmera. Tanto que filmamos em cinemascope, coisa muito rara no Brasil, mas foi isso que me permitiu fazer planos em sequência para privilegiar a emoção do ator. Um plano de quatro minutos, por exemplo, não é cortado, não desliga a emoção do ator.
‘‘Amor & Cia’’ é um filme de homens?
Helvécio Ratton - O nosso filme realiza a sua proposta. No prêmio em Brasília, por exemplo, o júri julgou uma luz, sobre um trabalho feito com muita sutileza e delicadeza num universo masculino. Mas onde o objeto central da discussão é uma mulher, que fala pouco, que se expressa pouco e tudo gira em torno dela. Patrícia fez um trabalho iluminado.
Qual vai ser a rota dos festivais, que o filme deve participar?
Helvécio Ratton - O filme vai, dia 12 de novembro, para Mar Del Plata, participar do festival local e vai ser o único filme brasileiro na competição.

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