Amizade iluminada
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Marcos Losnak<BR>Especial para a Folha 2 
Geralmente as crianças ficam ruborizadas quando envergonhadas. Quando levam uma tremenda bronca, quando fazem alguma besteira que não deviam ter feito. O rosto, de uma hora para outro, vira um pimentão.
Com o pequeno Marcelino acontecia algo diferente. Ele ficava vermelho feito pimentão a maior parte do tempo. Ruborizava sem nenhum motivo. E quando ficava envergonhado, quando levava uma bronca ou fazia algo errado, o vermelho de seu rosto desaparecia.
Aos olhos dos outros, Marcelino era considerado um garoto estranho. Ele mesmo não entendia o motivo. Cansado de ouvir comentários sobre sua vermelhidão, tornou-se um menino solitário. Preferia brincar sozinho, longe das outras crianças.
A história desse garotinho eternamente ruborizado está em Marcelino Pedregulho, obra infantil do cartunista francês Jean-Jacques Sempé lançada pela editora Cosac Naify. Um dos livros mais famosos de Sempé, é considerado uma espécie de clássico sobre a amizade e seus laços eternos. O máximo de informação com o mínimo de traços.
A tristeza solitária do pequeno Marcelino ganha uma trégua quando um garoto chamado Renê Rocha se muda para seu prédio. Renê é igualmente um menino solitário por uma característica particular: vive o tempo todo espirrando.
Renê nunca ficou gripado, nunca teve alergia e, mesmo assim, espirra a cada cinco minutos. Um atchim atrás do outro. Considerado um garoto estranho aos olhos dos outros, encontra em Marcelino o amigo ideal.
Juntos, vivem as mais divertidas aventuras, as mais gostosas brincadeiras. Desenvolvem uma amizade iluminada pelo sol. Aquelas amizades que fazem da infância um parque de diversões.
Como a vida se parece muito mais com uma estrada repleta de buracos do que com uma escada rolante, uma inesperada distância se instala entre Marcelino Pedregulho e Renê Rocha. Aquelas coisas que os adultos fazem sem levar em conta o ponto de vista das crianças.
Mas Marcelino Pedregulho não é nenhum livro trágico sobre o sentido da amizade. Há um reencontro revelador quando os dois amigos deixam a infância para trás. Um novo encontro na idade adulta, quando detentores das responsabilidades típicas dos marmanjos.
Em Marcelino Pedregulho, Sempé apresenta, através de uma sutileza elegante, que os laços afetivos são fundamentais para o entendimento dos mecanismos da vida. Um tipo de afetividade extremamente sutil, mas capaz de gerar uma tranquila compreensão do mundo. Aquele mundo que geralmente esquecemos que está ao alcance do toque, bem próximo dos dedos, entre um rosto ruborizado e um atchim.


