Amiga Peroba
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de novembro de 2001
Paulo Briguet 
''A peroba foi a minha primeira amiga em Londrina.
Quando cheguei à universidade, estava chovendo.
Como todo calouro é meio besta, desci no ponto de ônibus errado. Queria encontrar o curso de comunicação. Mas encontrei a peroba. E logo nos comunicamos.
Olha, não vou dizer que foi uma amizade simples. Eu tenho um metro e oitenta; ela tem dezenas de metros. Eu tinha 19 anos; ela tem alguns séculos; ela pertence ao reino vegetal; eu ainda estou no reino animal.
As diferenças, porém, costumam fazer amigos. É por isso que até hoje eu converso com a peroba. Sei que podem me chamar de louco, mas não ligo. A peroba foi a minha primeira amiga em Londrina; foi o primeiro ser vivo que identifiquei à distância.
Um dia, a peroba me disse: ''Estou morrendo''.
Há muito tempo ela ficou seca, triste, sem folhas. Árvores morrem de uma agonia silenciosa. E o silêncio da peroba fica ainda mais gritante quando o campus está vazio. Quando o campus está em greve. Quando o governador, que jamais foi amigo da peroba, vira as costas para tudo que ela representa.
A morte de uma árvore não é uma simples morte. É a metamorfose do vegetal em mineral. Em algum lugar do tempo, a planta deixa de ser planta para ser pedra. E assim também somos nós. Às vezes, o ser humano também precisa ser pedra.
Será que a morte beijou a peroba? Não importa. Vegetal ou mineral, ela continuará amiga. Eu sou do tipo que acredita na alma e na razão das pedras.
Continuaremos conversando, eu e a peroba. Ela, morta e altaneira; eu, vivo e cabisbaixo; ela, mineral e digna; eu, animal e lamentável; ela, pedra de madeira; eu, carne de segunda.
Hoje há uma greve justa e digna. E o campus está vazio. Mas, pra mim, a Universidade será sempre povoada de vivos e mortos; de amigos e fantasmas; de presente e passado. Você, peroba, mesmo que morta, mesmo que pedra, estará assim, este braço que se ergue na atmosfera, mão que aponta o céu, como se fosse agarrar o tempo intraduzível das coisas.
Amiga peroba: você está mais viva do que nunca. Deixou de ser um vegetal para se tornar um símbolo - essa pedra que resiste dentro de nós. E mesmo que você caia, e mesmo que você desapareça na terra vermelha, estará sempre ali, de pé, no primeiro ponto da universidade.
Amiga peroba: você é a casa de um pequeno ser chamado homem.''


