São Paulo, 24 (AE) - A escassez das grandes reportagens na televisão é um fato. As explicações são muitas, mas podem ser contestadas. Não dá para dizer que ficaram caras demais, já que volta e meia um ou outro repórter roda o mundo de microfone em punho. Só que, no lugar de informações, apresenta um monte de imagens embrulhadas por textos engraçadinhos. O telejornalismo voltou-se hoje para o entretenimento e aí se confunde reportagem com show de superficialidade. O semanal "Globo Repórter" é o que mais se aproxima da reportagem na sua essência, que soma pesquisa, contexto, desdobramentos e, principalmente, informação.
A boa notícia é que a reportagem está de volta. Luís Fernando Silva Pinto, correspondente internacional da TV Globo durante dez anos (de 1979 a 1989), apresenta "América, América", programa semanal do canal GNT (Net, SKY) que estréia na quinta, dia 07, às 21 horas. Silva Pinto, na verdade, está no ar desde 1995 com sua revista científica, "Scientia", que apresenta até a próxima semana. O que o jornalista traz de volta
e isso deve ser comemorado, é a reportagem de TV politemática e com os ingredientes citados acima. O cardápio do programa de estréia fala por si.
São três reportagens. A primeira, sobre um fotógrafo nova-iorquino que trabalha na linha da pornografia e da arte, mas sonha descambar de vez para a arte e ganhar rios de dinheiro. Silva Pinto inova ao usar duas câmeras, uma betacam (com o cinegrafista) e outra, portátil, digital, com o repórter. "A riqueza de imagens é o que mais me agrada no programa", diz Silva Pinto. Para a diretora do GNT, Letícia Muhana, "América, América" "é uma evolução do Scientia".
A equipe de "América, América" acompanha uma das sessões de fotos no apartamento/estúdio de Richard Kern, que recruta modelos amadoras por meio de cartas, e-mails e indicação de amigos. "Quero captar a situação mais cotidiana possível, sem que a modelo se incomode com a câmera", explica o fotógrafo
mostrando a imagem de uma modelo seminua que se esquece da câmera enquanto coloca uma lente de contato. Em seguida, Silva Pinto entra numa Supermax, prisão de segurança máxima para homens de 18 a 21 anos. É uma caixa de concreto de US$ 8 milhões
que abriga mil presos. Nesse caso, pouca coisa poderia surpreender os brasileiros, mas as imagens de "América, América" valem como contraponto, no caso da prisão.
Impressiona a cela de segurança absoluta, com 6 metros quadrados, chuveiro, pia, vaso sanitário, cama e janela. O jovem que cai ali deve ter agredido outro preso ou um guarda. Ele passa ali 23 horas do dia. Sai para caminhar uma vez por dia, sozinho, num corredor, sem rádio, sem jornal, sem relógio, sem conversar e sem ter idéia do tempo que passará ali. "Vou passar a vida aqui", diz um rapaz de 17 anos, na cela de segurança absoluta. "Porque sei que, ao sair, não vou fazer a coisa certa".
Na terceira reportagem, a equipe vai a Baltimore, onde comerciantes italianos decidiram montar um cinema a céu aberto como resposta à proibição de exibirem um outdoor divulgando as suas lojas. O projetor pesa algumas centenas de quilos e só pôde ser instalado na única janela defronte da tela, na casa de um homem de 80 anos. Uma história engraçada, leve, comovente e, melhor de tudo, bem contada.

mockup