O alfabeto do melhor cinema espanhol de hoje também começa pela letra A, de Autor, de Almodóvar e de Amenábar, dois paroxítonos-paroxísticos. Pedro e Alejandro. O primeiro já é velho e aclamado conhecido, enquanto este último é prodígio mais recente, muito jovem (31) mas já com três blockbusters no ativo: ''Abre Los Ojos'', ''Os Outros'' (aquele terror elegante com Nicole Kidman) e agora este magnífico ''Mar Adentro'', colecionador de prêmios e de polêmicas hoje estreando no Brasil impulsionado pela expectativa do Oscar de melhor filme de língua não inglesa, além dos 14 prêmios Goya obtidos em 15 nominações.
E pelo tema, claro. Ao contar a história verídica do marinheiro galego Ramón Sampedro, tetraplégico que em 1998, aos 55, afinal praticou e documentou em vídeo a eutanásia (bela morte, literalmente) depois de 28 anos e quatro meses de batalha judicial inútil para obter autorização legal para pôr fim à vida, Amenábar colocou novamente em evidência a delicada bandeira social do direito à morte. Este assunto explosivo esteve no centro da entrevista exclusiva que Amenábar concedeu à ''Folha'' no espaço da RAI-TV do Hotel Excelsior, em setembro de 2004. Confira os principais trechos.
Seu primeiro filme, ''Tesis'', que concorreu no segmento latino do festival brasileiro de Gramado, era sobre a morte violenta, os assassinatos de verdade praticados nos ''snuff movies''. ''Abre os Olhos'' falava sobre a morte por frustração e infelicidade. O terceiro, ''Os Outros'', sobre o lado obscuro da família, filtrado pelo ponto de vista da morte. E agora ''Mar Adentro'', manifesto inequívoco a favor do direito de morrer. Por que o tema é recorrente em sua curta carreira?
Pode ou não ser coincidência, embora o assunto seja para mim fascinante. Mas prefiro falar agora sobre este meu filme mais recente, embora goste de todos os anteriores.
Como você vê a morte? Você é religioso?
Digamos que sou um humanista-agnóstico. Quanto à morte, suspeito que depois dela, bem, depois não há mais nada...
Diante de um tema tão cheio de armadilhas, que estratégia você programou para contar na tela a história verídica de Ramon Sampedro?
Eu sabia que deveria evitar qualquer obviedade e ir diretamente ao coração das coisas: amor, liberdade, vida e morte, sem me esconder atrás da figura de Ramón Sampedro. Temas capitais dos quais me aproximei com os pés na terra.
O filme acaba de estrear na Espanha (NR: agosto de 2004) e depois foi exibido somente uma única vez agora em Veneza, mas a Igreja Católica já se está condenando o filme publicamente.
O argumento da condenação da Igreja é que Ramón não é um herói, mas um covarde. Mas para mim é um herói pela maneira como enfrenta com coragem a aventura da vida. Somos todos igualmente corajosos, sejam aqueles que vão como os que ficam. É como Ramón dizia ''Quem sou eu, para julgar aqueles que querem viver?'' E se você reparou na dedicatória do filme verá que ela é para Sonsones Pena, uma amiga muito querida que morreu de câncer há um ano. Mesmo sabendo que estava condenada, nunca aceitou que deveria morrer. Como Ramón lutou até o último minuto, só que pela escolha contrária. A vida, como ele dizia, não é uma obrigação. A escolha é somente sua.
Seu filme, apesar do tema da morte tão presente, tem uma fascinante luminosidade, e paradoxalmente pareceu para mim a elegia da vida.
Isto a que você se refere fica por conta do próprio carisma de Ramon Sampedro, tão bem captado e incorporado pelo talento de Javier Bardem. De fato o filme trabalha também em chave de contradição. Ramón é tão cheio de vida, teve tantos e tão bons amigos e apesar disso perseguiu a morte com tenacidade até obtê-la. ''Mar Adentro'' é a visão da morte a partir da vida, do mais natural e rotineiro evento, do lado mais luminoso das coisas.

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