A polêmica em torno de ‘‘O Fabuloso Destino de Amélie Poulain’’ (veja a programação de cinema na página 2) começou em abril do ano passado, quando o filme não foi selecionado para o Festival de Cannes. Simultaneamente, porém, tinha início uma fulgurante carreira comercial no circuito exibidor da França - até hoje são 41 milhões de dólares somente em território francês, superando a grande maioria dos paquidermes hollywoodianos lançados por lá na mesma temporada, aí incluídos ‘‘Jurassic Park 3’’ e ‘‘O Planeta dos Macacos’’. E nos Estados Unidos, mercado xenófobo sempre impermeável às investidas de produtos de outros países, ‘‘Amélie’’ não deixou por menos - certo que também empurrada pelo poderoso lobby Miramax - e emplacou outros U$ 25 milhões, um recorde para filmes estrangeiros no mercado dominado pelas ‘‘major’’.
Mas para além da fria contabilidade, ‘‘Le Fabuleux Destin de Amélie Poulain’’ é fenômeno cultural incontestável. Nunca na França se falou e se discutiu tanto sobre um filme. Críticos de todos os matizes políticos deram sua opinião, e até o presidente Jacques Chirac pediu uma projeção privada para conhecer o motivo de tal fenômeno de popularidade. À primeira vista parecia não haver razões para que o filme exercesse tão grande influência. Comédia romântica com elementos de fantasia, ‘‘Amélie’’ foi escrito e dirigido por Jean-Pierre Jeunet, hoje um dos principais realizadores franceses, responsável por êxitos como a comédia canibalesca ‘‘Delicatessen’’ (91) e o gótico conto de fadas ‘‘A Cidade das Crianças Perdidas’’ (95), ambos co-dirigidos por Marc Caro - depois disso, Jeunet passou um tempo em Hollywood, onde dirigiu para a Fox o hit ‘‘Alien, a Ressurreição’’.
Um acontecimetno singular muda para sempre a vida de Amélie no dia 30 de agosto de 1997. A data é importante porque marca a morte trágica de Lady Di, e principalmente porque é a unica referência ao mundo real contida no filme. Tudo o mais que se verá pertence ao território da fábula ou do conto de fadas, e já se sabe que entre tais limites tudo se simplifica: as paisagens são perfeitas como cartões postais, os personagens cabem todos em meia dúzia de traços e o ordinário vira extraordinário. Amélie Poulain até então tinha vivido numa espécie de bolha, e a explicação é dada numa das mais estimulantes aberturas de filme nos últimos tempos - Jeunet informa de modo singular e sintético, em planos acelerados, sobre a infância do personagem, sobre ela mesma, sobre os pais e sobre todos os que a cercam. Sem amigos, isolada entre a mão neurótica e a frieza do pai médico, a Amélie não restou outra saída se não o refúgio em sí mesma e em suas fantasias. Adulta, instalada em Montmartre, trabalha como garçonete no café Les Deux Moulins. Observa os seres da vizinhança, todos pitorescos. Contempla apenas, desde seu refúgio poético. Não participa deste mundo real, não expõe suas emoções. Mas chega o 30 de agosto, e as coisas mudam, por casualidade ou não.
Em seu apartamento, escondida sob as tábuas do piso, ela encontra uma pequena lata onde algum antigo inquilino guardou, há 40 anos, pequenos tesouros infantis. Diante de seu achado, Amélie decide e se compromete a encontrar o dono daquelas riquezas. Quando isto acontece, ela sente a alegria e intensa emoção daquele que foi menino um dia e decide e se compromete mais uma vez: será o anjo protetor de todas as almas tristes que cruzem seu caminho, a anônima repartidora de júbilo para aqueles que a rodeiam. As formas escolhidas por Amélie para distribuir o bem são sempre oblíquas, secretas e variadas. A maneira? A do encanto ingênuo que lhe confere a presença deliciosa e imprescindível de Audrey Tatou (a tímida e calada cabeleireira de ‘‘Instituto de Beleza Vênus’’), alguém com os traços conjugados de Audrey Hepburn e Juliete Binoche, e com talento. Precisa mais?
A imaginação e o humor abundantes de Jeunet abastecem sua fábula com dezenas de histórias, em uma sucessão vertiginosa destinada a sustentar permanentemente o interesse da platéia. Há sempre um gag, uma anedota, uma surpreendente ocorrência envolvendo Amélie. Ou então uma nova demonstração de seu generoso engenho para manter o espectador seguro no sedutor território de magia, humor e bons sentimentos que propõe a fábula. E há ainda a intriga colateral que nasce com a aparição do insólito galã Nino (Mathieu Kassovitz), alguém com no mínimo curiosas características pessoais.
‘‘O Fabuloso Destino de Amélie Poulain’’ foi alvo de críticas severas dirigidas a partir da esquerda francesa, ‘‘Liberation’’ à frente, que chamou o filme de fascista por abdicar de um enfoque realista, preferindo uma ‘‘Montmartre de postal destinado a seduzir o público norte-americano que gosta do pitoresco’’, segundo um analista do diário ‘‘L’Humanit钒. O que o fossilizado ‘‘gauchismo’’ da imprensa parisiense parece ter esquecido é que ‘‘Amélie’’ é o momentaneamente cinema nacional francês - e por extensão europeu - na linha de frente da batalha cultural (e econômica) que as cinematografias nacionais do velho continente travam há tempos, e infrutiferamente, contra a insidiosa ocupação do similar americano nas telas de toda a comunidade européia. Ao endossar sem restrições um filme tão visceralmente gaulês como ‘‘Amélie’’, o público da França avalizou a política de resistência de cinema como bem cultural e econômico, a ser preservado com a obstinácia - e o bom humor, por que não ? - de um Asterix.

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