Paris. Julho de 1942. Agindo no silêncio da madrugada, policiais franceses invadem as casas marcadas pela Estrela de Davi, apreendendo e transportando milhares de famílias judias para Auschwitz, e dando início a um dos episódios mais chocantes da ocupação nazista na França. O fatídico dia (conhecido como 'Vel d'Hiv') é o ponto inicial da história de ''A Chave de Sarah'' - estreia de hoje na programação do Cine Com-Tour/UEL.
Paris. 2009. A jornalista americana Julia Jarmond (Kristin Scott Thomas) começa a produzir uma matéria sobre o fato histórico para a edição especial da revista francesa na qual trabalha. É uma pesquisa difícil; quase não existem registros sobre os doze mil judeus desaparecidos, e a própria França parece ter resolvido esquecer que esta terrível operação um dia existiu, e que foi executada cruelmente pelas mãos da própria polícia francesa.
No meio da sua busca pela verdade dos acontecimentos, a repórter se vê atraída pela história da pequena Sarah (Mélusine Mayance), uma judia de 10 anos que foi vítima do acontecimento. O destino das duas personagens se entrelaça através da descoberta de que o apartamento do marido de Julia, Bertrand (Frédéric Pierrot), havia sido confiscado da família de Sarah no passado. Assim, com uma estrutura narrativa que se move através do tempo, o filme acompanha essas duas histórias paralelas, que vez por outra conversam entre si.
A jornada de Sarah começa quando a garota - pensando em salvar o seu irmão mais novo dos policiais franceses - tranca-o no armário de casa, guardando a chave no bolso e prometendo voltar para resgatá-lo. Enquanto isso, entrevistas e documentos descobertos pela jornalista revelam, gradualmente, o caminho de sobrevivência da garota, sempre obstinada por voltar para casa e salvar o irmão.
Não é fácil seguir os passos da pequena através do inferno nazista, mas é interessante notar como que, mesmo nas condições desumanas do holocausto, a crueldade e o desrespeito contrastam com a ingenuidade da garota e a compaixão de alguns personagens pelo seu caminho. Mais do que as cenas fortes do campo de concentração, esta ambiguidade moral é a principal responsável pela beleza inerente do filme, e que causa um nó na garganta do espectador.
Com atuações espetaculares, tanto da veterana Kristin Scott Thomas quanto da jovem Mélusine Mayance - que conseguem proporcionar a profundidade dramática necessária para as personagens principais - as lentes do diretor Gilles Paquet-Brenner conseguem relatar uma história incrível sem apelar para o sentimentalismo barato, escapando de diálogos muito elaborados e de cenas-clichê comuns em 'filmes de guerra'. Ao final, esse minimalismo narrativo é exatamente o que aumenta o potencial dramático do longa.
Fruto de uma história que mistura épocas, destinos e emoções, ''A Chave de Sarah'' consegue atingir o público com um questionamento mais universal do que aquele proporcionado pelas barbáries cometidas na 2 Guerra. Em seu desfecho singelo e impactante, o longa se revela como uma imensa epopeia trágica que trata, fundalmentalmente, de uma reflexão sobre a própria essência da natureza humana.

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