Na tentativa de retratar o cotidiano das cidades brasileiras, folhetins de tons naturalistas assumem o compromisso de serem o mais coerente possível com a realidade. Geralmente, a estética desse tipo de trama se distancia de eventuais exageros, principalmente no que diz respeito aos cenários.
De acordo com a ambientação da novela, a cidade cenográfica passa a respeitar o local de referência e o conhecimento do público. ''O primeiro passo para se construir um cenário a partir de uma cidade ou região existente é pesquisar, fotografar e catalogar todas as informações do local. É um trabalho minucioso, difícil e importante para dar formato à novela'', ressalta o cenógrafo Mário Monteiro.
Na Globo há mais de 30 anos, Mário trabalhou em clássicos como ''Gabriela'', de 1975, e ''Dancin' Days'', de 1978. Inclusive, ele também é responsável pela representação de Ilhéus na nova versão de ''Gabriela'', que está no ar atualmente. ''Retornei a Ilhéus com o Walcyr Carrasco (autor). Buscamos um outro conceito, ainda mais realista para a cidade cenográfica. As questões técnicas das novelas evoluíram muito nos últimos anos. A exigência é cada vez maior'', compara.
Por falta de registro, o trabalho da equipe de cenografia em tramas de época é carregado de licenças poéticas. Para reconstruir a Ilhéus do início do século XX na produção de 2012, Mário recorreu ao acervo fotográfico de historiadores locais, analisou as transformações da cidade ao longo dos anos e pescou referências das construções de outras cidades baianas na época, principalmente da capital, Salvador.
Pelo mesmo caminho histórico, mas de forma mais intensa, segue Daniel Clabunde, principal cenógrafo da Record. Responsável pelos suntuosos cenários de minisséries bíblicas como ''Sansão e Dalila'' e ''Rei Davi'' - onde as histórias se passam em lugares do Oriente Médio, cerca de mil anos antes de Cristo -, Daniel e sua equipe trabalham com inspirações em livros (incluindo a Bíblia) e filmes que retratam o período. ''Restaram apenas ruínas da Jerusalém daquela época. É só memória e nada muito bem registrado. Por isso, é necessário criar de forma mais livre'', explica Daniel.
No caso de tramas contemporâneas, o que conta mesmo é o realismo e a riqueza de detalhes na representação dos lugares. Principalmente, se a novela é ambientada em cidades famosas como Rio de Janeiro ou São Paulo e utiliza de pontos turísticos clássicos das duas metrópoles. ''É diferente quando o público também conhece e frequenta o local. Existe uma intimidade ao ver a cidade retratada na novela. Isso exige empenho para não decepcionar. Em 'Paraíso Tropical', a gente queria mesmo mostrar a Copacabana que os moradores e turistas conhecem'', exemplifica o cenógrafo Fábio Rangel, que na novela de 2007 utilizou a fachada do Hotel Pestana, localizado na orla do bairro, para o fictício Hotel Duvivier. Além disso, a equipe do folhetim recriou boa parte da rua Prado Junior, incluindo construções e comércios, em uma área de 6.500m2 do Projac - Central Globo de Produção, localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Rangel também foi o responsável pela elogiada cenografia de ''Tempos Modernos'', de 2010, ao reproduzir o Centro de São Paulo, em especial a Galeria do Rock. De forma mais ampla, vários pontos da capital paulista foram recriados na cidade cenográfica de ''Ti-Ti-Ti'', exibida no mesmo ano. Sob a responsabilidade de José Claudio Ferreira, a equipe recriou trechos do bairro periférico Belenzinho, detalhes do luxuoso centro comercial dos Jardins, e uma parte da Zona Leste da cidade, representada pelo bairro Jardim Anália Franco. ''Ao contrário do que é feito normalmente, a cidade cenográfica de 'Ti-Ti-Ti' era toda dividida em setores. Cada um minimamente construído para representar os pontos da cidade, fiéis ao que a autora pediu e ao que o público pôde ver pela tevê ou pessoalmente'', conta Ferreira.
Atualmente, o cenógrafo volta a trabalhar em uma nova cidade baseada em trechos de São Paulo com o ''remake'' de ''Guerra dos Sexos'', que tem previsão de estreia para outubro.

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