Amazônia de todos os tempos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de junho de 2000
Maria Teresa Dal Moro Do Rio de Janeiro Especial para a Folha2 
No momento em que um desvairado político pretendia mudar o Código Florestal e ampliar a zona de desmatamento da Amazônia, o Teatro Municipal do Rio encenava a Floresta Amazônica, de Villa-Lobos. O sucesso retumbante da produção (sete récitas normais e três para estudantes e crianças carentes) despertou o interesse de outros teatros do País. A primeira remontagem será em Porto Alegre e logo em Salvador. Por que não em Curitiba e Florianópolis?
Quando o telão se abre, o cenário de Hélio Eichbauer causa o primeiro impacto. É uma imensa clareira rodeada de troncos colossais e galhos exuberantes onde pousam as araras. É a Amazônia de todos os tempos. Os bichos despertam e tem início o bailado. São onças, sapinhos, cobras. A entrada dos macacos, liderados por dois integrantes da Intrépida Trupe, encanta o público. De repente, desce uma gigantesca tela e nela se projeta o documentário de Marcelo Dantas. É um hino à natureza e parece gritar como os marselheses da revolução francesa. Às armas, cidadãos! É o paraíso verdejante que avança e pede socorro.
A memória de Chico Mendes se faz viva no canto da natureza amazônica, na orgia de cores e luzes, na inocência dos animais que clamam pela vida. Após o documentário é impossível aplaudir; é momento de reflexão e preces. Deus salve a Amazônia dos predadores e dos maus brasileiros!
Villa-Lobos entra com a catalizadora força de sua música que só não sente quem não entende as dissonâncias do Brasil. A suíte sinfônica que Dalal Achcar transformou em bailado, é cheia de minúcias orquestrais, imponente coro masculino e inesquecíveis melodias. Na produção carioca, a regência orquestral ficou sob a direção de Henrique Morelembaum. Na estréia, Ana Botafogo foi a deusa da floresta. O Cacique do cubano Humberto Manrique deslumbrou o público pela técnica, virtuosismo e alta expressão de comando. O homem branco do uruguaio Marcelo Misailides e do cubano Liang Chang acabou ofuscado pela envolvente criação do brasileiro Thiago Soares.
O Coro Masculino, sob a direção do maestro Maurílio Costa, eletrizou a platéia, num feliz confronto com vigorosos bailarinos que representaram os índios. Belíssimo figurinos de Ney Madeira e apenas discreta participação do Corpo de Baile feminino. Dramática iluminação de Maneco Quinderê com participação de Marcelo Dantas nos efeitos de incêncio da floresta e chuva benfazeja.
Laura de Souza e Flávia Fernándes foram as excelentes vozes solistas das Canções do Amor e Melodia Sentimental e outros gorjeios. Em Curitiba, a parananense Deborah Oliveira poderia ser a solista ideal. Como encerramento desta produção que divide, com a grande exposição de São Paulo, as comemorações dos 500 Anos do Descobrimento, o Teatro Guaira merece realizar esta festa. E o público paranaense participar dela.
A Floresta Amazônica pretende percorrer o Brasil de ponta a ponta e despertar cidadania para que o povo brasileiro, inteiro e coeso, defenda nossa Amazônia. Que a juventude comece a se manifestar ruidosamente e mostrar que o país inteiro está em pé de guerra e não vai permitir que o Código Florestal seja alterado para atender ambiciosos que devem sonhar em ser os homens mais ricos do cemitério.
Maria Teresa Dal Moro é crítica de ópera e ballet no Rio de Janeiro


