São Paulo, 24 (AE) - Mais nova febre fitzcarraldiana do norte do País, a orquestra Amazonas Filarmônica faz história em Manaus com um conjunto de músicos composto majoritariamente por estrangeiros. O grupo, que já se apresentou no Festival de Inverno de Campos do Jordão, faz seu début paulistano nesta quarta (25), às 20h30, na Sala Júlio Prestes.
O solista é o pianista Arnaldo Cohen, que tocará o Concerto n.º 5 ("O Imperador", de 1809), de Ludwig van Beethoven (1770-1827). Cohen está entusiasmado com o projeto da filarmônica. Chegou até a profetizar recentemente, em entrevista à TV, que essa seria a melhor orquestra do Brasil.
À frente da orquestra amazonense está o maestro Júlio Medaglia, de 61 anos, um dos artífices do movimento tropicalista
formado em regência e composição pela Universidade de Freiburg, na Alemanha, ex-diretor do Teatro Municipal do Rio, entre outras numerosas atividades. Como compositor, acaba de gravar sete de suas peças com um grupo de câmara da Filarmônica de Berlim.
Medaglia concorda que é uma espécie de delírio a idéia de manter uma orquestra grande, de qualidade internacional, no cenário tímido da música no norte do País. Mas, avalia, os bons delírios costumam ser frutíferos. "A orquestra marca sua presença no Amazonas de diversas formas", diz. "Eu pus no contrato dos músicos estrangeiros a obrigatoriedade de darem oficinas e aulas e ajudarem na formação de músicos na cidade."
Cerca de 80% dos músicos são estrangeiros e vieram predominantemente do Leste Europeu. Medaglia fez inscrições também nas principais capitais brasileiras, mas os músicos nacionais não quiseram ir até Manaus. "É compreensível: eles tocam em cinco, seis lugares para ter uma vida razoavelmente digna e vir até aqui os impediria de continuar fazendo isso."
Atualmente, a Amazonas Filarmônica conta com 72 músicos. Mas acaba de realizar uma nova seleção na Europa e o resultado impressionou o maestro. "Virão trabalhar em Manaus oito músicos da Filarmônica de São Petersburgo, uma das melhores do mundo", revela Medaglia. "Eu jamais teria coragem de convidá-los, mas os próprios músicos que já estão aqui e vivem razoavelmente bem trataram de encorajar os colegas." Virão também quatro músicos do Ballet Kirov e dois da Filarmônica da Bulgária.
Segundo o regente, a decisão de criar a orquestra em Manaus partiu do governador Amazonino Mendes, que estaria desencantado com a falta de atividades musicais no centenário Teatro Amazonas. Medaglia diz que, no entanto, não foi apenas uma decisão política. "Um dia ele assistiu a um concerto que eu fiz na Ponta Negra, em Manaus", relembra. "Ele me chamou e disse: vamos fazer uma orquestra aqui, criar uma geração de bons músicos na cidade."
Preocupado com a possibilidade de a orquestra se tornar "mais uma de funcionários públicos", o governo amazonense criou uma associação cultural. Trata-se de uma empresa privada que tem subvenção, por lei, do Estado. É o mesmo que o governo de São Paulo quer fazer com a Sinfônica do Estado, de John Neschling. Os principais maestros brasileiros apontam essa mudança de gestão como a saída para os problemas das orquestras nacionais.
Um exemplo: no início de seu trabalho com a Amazonas Filarmônica, Medaglia quis comprar partituras de Beethoven. A secretaria de Cultura teve de abrir uma licitação internacional e só seis meses depois é que chegaram as partituras. "Agora, eu peço a partitura por computador, dou o número do cartão e imprimo na mesma hora", comemora o maestro. O sistema tem a agilidade de uma empresa e não está sujeito às intempéries da política.
CDs e concertos - A Amazonas Filarmônica gravou um CD recentemente, distribuído como brinde de fim de ano para a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas. Também deve gravar por um selo inglês. "Vamos gravar o Réquiem de Mozart e dois concertos para piano e orquestra, além de uma peça de Alberto Nepomuceno." A agenda do conjunto já é bastante intensa. No ano que vem, excursionará pelos Estados Unidos. Em 21 de abril, apresenta-se no Lincoln Center, em Nova York. No dia dos 500 anos do Brasil, 22 de abril, estará tocando na concha acústica às margens do Rio Potomac, em Washington.
Medaglia crê que o grande afluxo de músicos estrangeiros para as orquestras brasileiras vai ajudar na formação de músicos nacionais, como ocorreu nos anos 40 e 50 com uma leva de músicos italianos. "Hoje, a qualidade vem sobretudo dos naipes de cordas da Rússia, que certamente vão influenciar muito."
O programa do concerto de amanhã à noite abre com a composição Rio Moldávia, de F. Smetana. Isso ocorre porque o evento é promovido pela Wizo-SP (Women International Zionist Organization), uma organização não-governamental composta por mulheres do mundo todo identificadas com o sionismo. "Essa música acabou fazendo parte do hino nacional israelense e eu a incluí como uma homenagem às mulheres que estão realizando esse trabalho." Serviço: Amazonas Filarmônica. Regência de Júlio Medaglia. Participação do pianista Arnaldo Cohen. Amanhã, 25/8, às 20h30. Apresentação beneficente. De R$ 25,00 a R$ 90,00 (ingressos à venda somente na Wizo-SP, informações tel. 257-0100). Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 223-5199

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