Hillary Clinton que perdoe, mas hoje é o dia da ‘‘outra’’ no Brasil. A ela, presentes - de preferência - lingeries dos 12 maiores fabricantes do País, que tiveram a idéia de criar o Dia dos Amantes para comemorar os prazerosos momentos a dois na alcova.
A data foi instituída há cinco anos como uma jogada comercial para alavancar as vendas de roupas íntimas femininas. ‘‘A idéia era lançar uma campanha de marketing para aquecer o mercado no segundo semestre do ano, ocupando o espaço entre o Dia dos Pais e o Natal’’ - conta Hélio Oliveira Júnior, gerente de marketing de uma das empresas participantes da promoção.
Badalada na época do lançamento, a data gerou controvérsias na população, com muita gente criticando a conotação ambígua do termo. ‘‘As pessoas não entenderam direito associando a campanha ao incentivo de relações extraconjugais, quando na verdade toda publicidade era dirigida para as pessoas que se amam’’ - lembra ele.
Mas a explicação pouco adiantou, com a idéia de celebrar a infidelidade prevalecendo até hoje, mesmo sob a sombra da lei que prevê pena de 15 dias a seis meses de prisão para os que cometem adultério. Caduco para muitos, tal artigo do Código Penal continua presente apenas no papel, dada a dificuldade para conseguir provas para punir os supostos infratores.
As provas, no caso, são os flagrantes. Para obtê-los, não são poucas as pessoas que recorrem a detetives particulares. ‘‘Eu diria que 95% das solicitações envolvem casos extraconjugais’’ - revela o investigador Rudolf, de Londrina. Mulheres desconfiadas são as que mais o procuram, mas por serem dependentes financeiramente do marido acabam deixando de contratar seus serviços.
Ele conta que o relatório final é apresentado em, no máximo, dez dias ao cliente. Entre os casos memoráveis em que trabalhou, ele lembra de uma investigação envolvendo um médico, sua esposa e um amante. ‘‘Descobrimos que ela ia todas as tardes ao shopping, estacionava o carro, atravessava as galerias e pegava um táxi do outro lado para ir a um motel. De posse da informação, o marido foi até o local, esperou a mulher sair e fechou a passagem do táxi com seu carro. Logo atrás vinha o carro do amante. O cara era o seu melhor amigo.’’
A arquiteta Beatriz Martinez, 32 anos, não chegou a passar por situações como essa. Mas lembra que ‘‘a vida da outra é de constante constragimento’’. Ela foi amante durante 1 ano de um homem casado. ‘‘Tínhamos que conversar em código ao telefone. Um dia a mulher dele pegou a conversa na extensão e tive que desligar’’ - conta. Ela lembra que vivia uma paixão romântica pelo parceiro, com o qual sonhava em partilhar uma vida em comum depois que ele largasse a esposa.
‘‘Eu me sentia o filé mignon, a rainha da carne seca, aquela para a qual ele dedicava o melhor presente, o melhor humor e a melhor transa na cama. Achava que a esposa ficava com a sobra, com o dia-a-dia. Um dia, depois de pressioná-lo, eu caí na real e percebi que não seria a número um. Decidi acabar a relação. Na época, ele disse que não suportaria viver sem mim. Mas acabou suportando, e está com ela até hoje.’’
O tema da infidelidade, no entanto, pode ser vivenciado de maneira menos danosa aos sentimentos das pessoas. É o que afirma o terapeuta Paulo lemos no livro ‘‘Educação Afetiva - Por que as Pessoas Sofrem no Amor’’ (Lemos Editorial):‘‘Custa enorme sacrifício aos seres humanos bloquear um desejo. Quando se nota que o sacrifício é demasiado alto para cumprir uma norma que proíbe o desejo, tende-se a não cumprir a norma e é precisamente isso que está acontecendo aos relacionamentos, em relação à questão da fidelidade: a norma diz que não se deve ter relacionamentos afetivos e sexuais fora do casamento, mas o desejo está se impondo às pessoas e a norma está sendo constantemente violada. Talvez esteja na hora de revermos a norma para que ela se coadune à vida.’’

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