Amanhã tem marmelada, sim senhor. É dia do circo
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quinta-feira, 25 de março de 1999
Por Júlio Gama 
São Paulo, 26 (AE) - Em homenagem ao dia de nascimento do mais popular palhaço brasileiro, Abelardo Pinto, o Piolim, comemora-se amanhã (27) o Dia do Circo e do Artista Circense. Aprovada por lei pela Prefeitura de São Paulo, em setembro, é a primeira vez que a data é lembrada como parte do calendário oficial da cidade. Depois de domingo, o Circo Mundo Mágico de Beto Carrero, no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, reúne a classe para comemorar, mas a festa parece exceção numa atividade que vem minguando ano a ano.
Segundo a Associação Brasileira de Empresários de Diversões (Abed), existem hoje no Brasil cerca de 2 mil circos. Na melhor fase dessa atividade no Brasil, entre 1940 e 1960, havia cerca de 4 mil lonas montadas. "O público está sem dinheiro", diz o presidente da Abed, José Vitor Galvão, dono do único jornal da categoria no País. O "Arte & Diversões" é bimestral, tem 30 mil exemplares e cerca de mil assinantes, muitos donos de circo, que costumam telefonar para a sede do jornal a cada vez que mudam de endereço para receber os exemplares na agência dos correios mais próxima.
Pelos cálculos da Abed, a imensa maioria dos circos montados hoje no País é pequena e pelo menos 70% não são registrados. São esses os que mais sofrem para manter o elenco em forma, os números atraentes, o caixa em dia, a lona em ordem e o público nas arquibancadas. "Dentro de algum tempo os circos pequenos devem desaparecer", prevê Galvão. A rigorosa exigência de documentos por parte das prefeituras é, segundo Galvão, a razão pela qual a maior parte dos circos se mantém na ilegalidade. Montar a lona em São Paulo exige, entre outras coisas, autorização para uso do terreno, instalação de energia e de água, solicitação de vistoria dos animais, de policiamento, de higiene e saúde, alvará do Corpo de Bombeiros, do juiz da Infância e da Adolescência e laudo técnico de engenheiro civil. A realidade dos chamados circos pequenos é dura. Realidade - A história do Circo Jóia, montado há um mês na Vila Marcelo, cercado de casebres sem reboco, na região de Parelheiros, na zona sul, ilustra as dificuldades desses microempresários da alegria. O circo é admistrado por Robson Alexandre da Costa, de 28 anos, foi comprado pelo avô dele, nos anos 50, e passou para o pai, o palhaço Carioca, morto há 13 anos, quando passava a roupa que vestiria algumas horas mais tarde. Para manter viva a atividade que sustentava a família, Robson, que não era de circo, tornou-se palhaço aos 14 anos, enquanto o irmão mais velhos apresentava as atrações. "Minha mãe e meu irmão pensaram em vender o circo, mas como eu era o mais chegado a meu pai, chorei muito para não fazerem isso", lembra.
O circo tem cinco números: um aramista, que se equilibra a um metro e meio do solo; um artista que faz malabarismos com chapéus, bolas e claves; um engolidor de fogo; uma dupla de palhaços e quatro cães adestrados. O sucesso com as crianças do bairro é garantido pelo palhaço Bitolinha, personagem de Wellington Fernandes, um cearence de 28 anos, que abandonou a seca de Ererê, no Ceará, para meter-se no circo. Casado, ele mora num dos quatro apertados trailers, com a mulher, Marlene, e o filho Mateus, de três meses.
Há seis meses, o dono do circo apostou todas as fichas na contratação de um leão de 13 anos (vivem em média 15 anos). Roberto Carlos era o nome da fera. Chegou com pose de estrela. Trouxe a fêmea, Elza, que não trabalhava, mas era parceira fiel nas noites entre os espetáculos. Foi a melhor fase do Circo Jóia. "Chegamos a colocar 530 pessoas", diz Costa. A lotação é de 600 pessoas. O próximo passo era trocar a lona que tem quase dez anos, quando tem vida útil de três anos.
Até que um dia, atendendo a uma denúncia anônima de maus-tratos, uma representante da Sociedade Protetora dos Animais levou Roberto Carlos para exames. O rei das selvas morreu com os efeitos da anestesia. "A gente agora olha a jaula desmontada, já enferrujando, e dá uma saudade", diz Costa. "Tem dia que o domador vem aqui, um senhor de 60 anos, e ele senta num canto e chora". Elza foi para o zoológico municipal.
"Roberto Carlos nunca foi maltratado", explica Costa. "Ele comia uns oito quilos de frango e restos de carne que eu conseguia no açougue", continua. "Ele comia melhor que nós". Desde então, a maior estrela do circo passou a ser Gigi, uma cadelinha poodle "que dança pagode".
Sem Roberto Carlos, o público caiu cerca de 75%. "Ganho para sobreviver", diz Costa, que já faturou R$ 2 mil por semana e agora não chega a R$ 300. O cachê do palhaço está atrasado há duas semanas. Mas ele não pensa em abandonar o circo. "Ainda estamos melhor que muita gente, porque a gente chora de dia, mas ri à noite".


