Amadurecer não é envelhecer
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segunda-feira, 15 de dezembro de 1997
Adriana Ferreira Agência Estado 
DivulgaçãoO grupo é formado por Fernando Gama, Lourenço
Baeta, Zé Renato e Maurício MaestroSomos quatro
pessoas que
têm a mesma
importância
dentro do trabalhoOs cabelos brancos nas têmporas e pequenas rugas no rosto denunciam que o visual já não é o mesmo de há 20 anos. O trabalho, porém, continua com o frescor de duas décadas atrás. Para comemorar o sucesso obtido em todo esse tempo, o grupo vocal Boca Livre está lançando um CD cheio de convidados ilustres. Milton Nascimento, Chico Buarque, Gal Costa, Djavan e Zé Ramalho são alguns dos artistas que participam de 20 anos - Boca Livre convida, que registra as canções mais famosas do grupo. De 7 a 17 de janeiro, o grupo se apresentará, ao lado de dois ex-integrantes do quarteto, David Tygel e Claudio Nucci, no Teatro Rival, no Rio. Na semana seguinte, eles estarão no Palace, em São Paulo.
Foi um trabalho complicado: artistas com agendas cheias e
horários apertados. No final das contas, acabou dando tudo certo. Cada convidado foi chamado para cantar a música que lhe parecia mais adequada. Assim, couberam a Milton Nascimento os versos de Toada (na direção do dia); para Chico Buarque ficou reservada Feito Mistério; e Djavan fez o solo de Mistérios. Todas as escolhas têm a ver com a sonoridade da pessoa, com o que ela representa e a sua maneira de interpretar uma canção, explicou Maurício Maestro, responsável pelos arranjos.
Erasmo Carlos, por exemplo, dá um leve ar safado à música
Neném. É o tremendão cantando a música do taradão, brincou Lourenço Baeta. Já Zé Ramalho é definido pelo quarteto como um perfeito profeta do apocalipse em Gotham City. Em Folia, Beto Guedes doa um pouco do seu jeito bicho grilo, com direito a uma inserção de um trecho de Lumiar.
Para a música Quem tem a viola foram convidados três bons
violonistas: Roberto Frejat, do Barão Vermelho; o ex-Mutante Sérgio Dias e Ricardo Silveira. A idéia era ressaltar o som das violas, explicou Maurício Maestro. Única mulher a participar do disco, Gal Costa dá um toque limpo à gravação à capela de Ponta e Areia. O disco conta ainda com a participação de Paulinho Moska, em Diana e dos ex-bocas David Tygel e Claudio Nucci em Bicicleta.
O Boca Livre começou, em 1978, participando do disco
Camaleão, de Edu Lobo e depois excursionou com o compositor através do projeto Pixinguinha. No ano seguinte, o primeiro disco, de selo independente e que recebeu o nome do grupo, foi uma explosão: 100 mil cópias. Bicicleta, o segundo trabalho, vendeu 40 mil cópias.
Inicialmente o quarteto era composto por Claudio Nucci, Zé
Renato, David Tygel e Maurício Maestro. Lourenço Baeta entrou para o grupo em 1980, no lugar de Nucci e, há seis anos, Fernando Gama substituiu Tygel. A fórmula para conseguir manter o trabalho parece ser simples: Não existe disputa de poder entre nós, garantiu Lourenço Baeta. Somos quatro pessoas que têm a mesma importância dentro do trabalho e cada um com um peso específico completou Fernando Gama.
Filosofia Além disso, o Boca Livre possui uma filosofia: cada um tem a liberdade de criar trabalhos em outras direções. O grupo não tem condições para absorver todos os desejos de cada um, diz Maurício Maestro.
Além de recriar para quatro vozes músicas já conhecidas do
público, o Boca Livre também ficou conhecido por causa de suas próprias composições. Ter um trabalho de composição sempre foi algo claro e marcado, diz Zé Renato. Tanto assim, que uma música inédita, Último Sinal, de sua autoria e de Lourenço Baeta, foi também incluída neste novo CD.
Para Zé Renato, o quarteto pode se gabar de não ter se
submetido às pressões do mercado. Nunca deixamos de usar a intuição e a espontaneidade, garante. Ele ainda revela o pulo do gato: O mais importante é que, depois de ultrapassar as dificuldades comuns neste tipo de carreira, conseguimos manter o espírito de diversão. Uma prova de que amadurecer não é sinônimo de envelhecer.


