Há algo que possa se mover com a hidrazina, o combustível dos foguetes? A dúvida apresentada pela estudante Mayara Eduarda da Silva, 17 anos, foi o que motivou os estudantes do Clube de Ciências da Escola Estadual Adélia Dionisia Barbosa, no Conjunto Parigot de Souza III (Zona Norte de Londrina), a pesquisar a viabilidade do hidrogênio como um combustível alternativo aos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), grandes emissores de gás carbônico, contribuindo para o aquecimento global. Segundo os 15 estudantes do Ensino Médio, participantes do projeto, cerca de 50 milhões de carros emitem CO2 na atmosfera, mais os aviões. ''O hidrogênio é uma fonte de energia tão limpa que o único resíduo que produz é o vapor d'água'', argumenta Mayara.
No dia 12 de fevereiro do ano passado o diário de bordo anotou o início das pesquisas. O professor de Matemática e coordenador do Clube de Ciências, Adriano Augusto Leite Vicente de Azevedo, adaptou o automóvel, um Landau 76, para realizar os experimentos. Depois de cinco meses de investigação e tentativas, os alunos conseguiram montar um kit alternativo utilizando o mesmo motor à combustão, eliminando os impactos ambientais e financeiros.
Falta de dinheiro, descrédito das pessoas e ausência de um espaço fixo para se reunirem foram algumas das dificuldades enfrentadas pelos estudantes. ''Entramos com um projeto no Estado, mas, ninguém respondeu. Também obtivemos várias negativas na iniciativa privada - diziam que o carro iria explodir (o hidrogênio é altamente combustível e instável)'', relembra o professor. Três empresas patrocinaram o projeto, cujo investimento foi de R$ 5 mil. ''Somente o cilindro com gás sairia R$ 3 mil; conseguimos comprar só a carga a preço de custo - R$ 360'', conta Azevedo.
A participação em uma feira estadual de ciências, em Arapongas, garantiu a presença do grupo como finalista da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) como o projeto ''Hidrogênio - uma alternativa para o futuro''. ''Para fazer o carro funcionar na feira precisaríamos de mais R$ 1.500. Por isso, levamos um DVD documentando o projeto. Foi nossa primeira participação em uma feira nacional. Pudemos conhecer vários trabalhos interessantes e tivemos retorno positivo dos avaliadores'', comemora Marcos Alexandre Sales, 15 anos, do 2º ano do Ensino Médio. Nem mesmo uma sala fixa os alunos conseguiram para estudar. O professor conta que o grupo quase montou uma sede do QG fora da escola. Mesmo com todos os percalços, a pesquisa prossegue com novos desafios - desenvolver o acelerador do automóvel e trabalhar o hidrogênio em estado líquido, mais compacto.
Desde 1999 - ano em que o professor Adriano teve a iniciativa de montar o Clube de Ciências - os alunos vêm mudando a forma de investigar a realidade. ''Estávamos cansados de aprender Química, Física, Biologia apenas em sala de aula. Agora ficou mais interessante'', atesta Mayara Barra, 16 anos, do 2º colegial. ''Na prática aprendemos de forma mais divertida. Compartilhamos dúvidas e temos total liberdade de discutir as idéias mais loucas'', enfatiza Wagner Pires Bento, 16 anos, 3º colegial. (C.V.)

mockup