Pelas mãos de um jovem diretor teatral siberiano, e estreante no cinema Ivan Vyrypaev, estreou na competição veneziana o sintético, mas vital ‘‘Euforia’’. É uma história de uma loucura amorosa, entre paixão, sacrifício e euforia erótica. Homem e mulher se conhecem durante o casamento de amigos, e são envolvidos pelo clima passional. Ela é casada e tem uma filha pequena, mas parece disposta a sacrificar tudo em nome do novo amor. Tudo se encaminha para um desenlace trágico. Se filmar fosse esporte radical, este seria exemplar campeão.
  ‘‘Euforia’’ é belíssimo em 74 minutos essenciais, forma e fundo se fundem à perfeição para dotar a história de seu radical sentido de urgência. Paisagem e musica (demasiadamente parecida com a de Piazzola) fazem muita diferença aqui, bem como a extrema vitalidade de Vyrypaev por trás da câmera. Não chega a ser uma aposta forte, mas justifica plenamente a seleção.
  Em meio a tanta imagem-cabeça, nada como um bom bangue-bangue para aliviar as tensões. ‘‘Exiled’’, de Johnny To, justifica a fama de cult do diretor de Hong Kong. É um ‘‘thriller’’ de arte e ensaio, por que não, carregado de tensão e violência, um autêntico western, só que urbano, ambientado nas ruas de Macau. Inegável a influência direta dos western espaguete de Sergio Leone com seqüências que são citações autenticadas.
  Cinco amigos de muito tempo, agora em atividades ilícitas diferentes, se reencontram na colônia portuguesa. O ano é 1998, antes portanto que ela seja devolvida ao controle chinês. A princípio separados por questões profissionais, acabam por se unir para enfrentar os chefões do crime de Hong Kong. Há ótimo clima, tiroteios coreografados em profusão e um bom humor que em grande parte remove o ranço da solenidade quando o assunto é acerto de contas e nada além disso. É outro que não leva prêmios, mas tem presença justificada.
  E quem desembarcou ontem de última hora na mostra competitiva foi o filme-surpresa ‘‘Sanxia Haoren’’ (Natureza Morta), mais um oriental a engrossar a extensa lista de asiáticos que este ano, mais que em outros, tomou de assalto a seleção oficial - não são poucas as críticas que o diretor da mostra, Marco Muller, tem recebido por esta postura, digamos, francamente ‘‘asiáfila’’.
  Dirigido por Jia Zhangke, da linha de frente independente chinesa, o filme tem como trama duas histórias de amor paralelas mas com conclusões diferentes. E como pano de fundo a antiga cidade de Fengjie, meio submersa por conta da construção de um dique. O filme é muito interessante e pode até surpreender com alguma premiação importante.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza.

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