Alucinação no palco
Há 57 anos era encenada Vestido de Noiva, peça que se tornaria um marco da dramaturgia nacional. Outros provocantes textos viriam firmar o estilo rodriguiano
As luzes do teatro brasileiro se acenderam às 21h30, do dia 28 de dezembro de 1943, com Vestido de Noiva. Os 2.205 espectadores do Teatro Municipal do Rio de Janeiro não acreditavam no que acontecia no palco: 140 mudanças de cenas, 132 efeitos de luz, 20 refletores, 25 atores e 32 personagens. Os planos se cruzaram (realidade, memória, alucinação), tornando-se o divisor de águas do teatro brasileiro.
Vestido de Noiva rasgou o véu da consciência, para dar vazão às fantasias do inconsciente. Alaíde fora atropela no Largo da Glória e vai para o pronto-socorro. É operada. Em seu delírio, surgem outros personagens: sua irmã Lúcia, cujo namorado Alaíde roubou e com quem se casou; Pedro e Madame Clessy, uma cafetina assassinada em 1905. A morta do início do século dialoga com personagens de 1943. O público saiu atordoado. Nelson Rodrigues tirou o teatro brasileiro da sala de estar, onde os atores se revezavam na chamada esquerda alta e direta baixa e vice-versa.
A partir daí Nelson conheceu a mais contraditória fortuna crítica, sendo até vaiado e ameaçado de morte. Com a peça seguinte, Álbum de Família, recebeu a interdição da censura durante 21 anos, conquistando as alcunhas de obsceno e tarado. Estou fazendo um teatro desagradável, peças desagradáveis. E por que peças desagradáveis? Segundo já se disse, porque são obras pestilentas, fétidas, capazes de produzir o tifo e a malária na platéia, afirmou Nelson. Os conflitos sexuais, a obsessão pela morte, a presença do grotesco permeavam as chamadas tragédias como A Falecida, Os Sete Gatinhos, O Boca de Ouro, Bonitinha, mas Ordinária, entre outras.
O maior estudioso do universo rodriguiano no Brasil, o crítico teatral Sábato Magaldi, assinala em seu livro Nelson Rodrigues: Dramaturgia e Encenações que o tempo vai dando razão a Nelson Rodrigues. Contra o cosmopolitismo, ele achava fundamental conhecer o bairro, o quarteirão, e esse mergulho na vizinhança vai fazendo dele, sempre mais, um cidadão e um autor do mundo. Palavras sábias que estão ganhando força a cada dia. (F.F.)





