Altos e baixo de uma festival
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sexta-feira, 15 de agosto de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
DivulgaçãoO ator Elliot Gould perambula por Gramado e assiste aos filmes que não têm legenda em inglêsA esta altura do 25º Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro, já se sabe que não há muito a comemorar pelo primeiro quarto de século da mais importante mostra que se realiza no País. Isto quanto aos filmes, já que a organização mostrou agilidade e eficácia, alcançando o esperado grau de profissionalismo - algumas desagradáveis quedas de energia ficam por conta da sobrecarga da rede em ocasiões de pico.
A parte competitiva terminou ontem à noite, e hoje acontece a cerimônia de entrega dos Kikitos aos melhores, com transmissão ao vivo pela TV Educativa do Rio Grande do Sul. Antes será exibido o segundo longa gaúcho fora de concurso, Anahy de las Missiones.
Nenhum grande impacto, nenhum filme memorável, tanto de um quanto de outro lado. Entre os latinos, o destaque ficou por conta de Bajo la Piel, curioso e forte policial dirigido por Francisco Lombardi. O detalhe de bastidores é que Lombardi, também cartola do futebol peruano, esnobou Gramado e preferiu acompanhar até Belo Horizonte o time que preside, o Sporting Cristal, durante a final da Libertadores com o Cruzeiro, na última quarta-feira. Como se sabe, seu time perdeu mas Bajo la Piel é o favorito para sair de Gramado com alguns prêmios importantes (filme, direção, roteiro e ator). De resto, há uma simpática co-produção Portugal-Cabo Verde-Brasil, O Testamento do Senhor Napomuceno, de Francisco Manso, um segundo e frustrante momento cubano, Pon Tu Pensamiento en Mi, de Arturo Sotto, e uma insólita experiência mexicana, La Linea Paterna, espécie rara de documento poético que é a um só tempo busca a homenagem familiar e a elegia ao cinema - o diretor José Buil resgata e recupera velhos filmes domésticos feitos em 9,5 milímetros feitos ao longo do tempo pelo pai. Pode ser que, a exemplo de Cannes, a safra de momento não seja das melhores, mas de qualquer maneira é preciso assegurar para Gramado um pouco mais de qualidade e atualidade entre os títulos que procedem do resto do continente. Uma questão de curadoria mais rigorosa.
Na trincheira do Brasil, mais ou menos na conveniente linha atual tudo que reluz é ouro, ou pegar ou pegar, andam sobrando elogios para todos. Mas a coisa não é tão simplista assim. Dos seis títulos em competição, há quatro razoáveis - Bocage - o Triunfo do Amor, Buena Sorte, O Amor Está no Ar e For All - O Trampolim da Vitória. E dois sólidos, O Homem Nu e Os Matadores, vigoroso policial fronteiriço do estreante Beto Brant.
Entre os curtas, a novidade maior este ano não está na maior ou menor qualidade, mas na distribuição geográfica. Depois de muitos anos de hegemonia paulista, o Rio de Janeiro ressurge em Gramado-97 com 8 títulos em competição, consequência direta das recentes políticas de incentivo, através de prêmios-resgate ou leis de investimentos e patrocínios culturais.
A movimentação paralela andou bem comportada. O ator americano Elliot Gould anda meio perdido e assiste a tudo com estóica bravura - não há nenhum filme com legendas em inglês. Homenagens e lançamentos de livros sobre assuntos cinematográficos diversos são sempre uma atração à parte. Há uma feira de cinevídeo com estandes de países latinos e europeus, encontro de exibidores e encontros com a oficialidade - o ministro Weffort esteve por aqui e mais ouviu do que falou com a classe. Exatamente como no ano passado. E provavelmente como em 98.


