ALTMAN E AS MULHERES
Dr. T and the Women, em competição no 57º Festival de Veneza, deixou os jornalistas meio sem jeito, quase aturdidos, um tanto perplexos. O filme, que pela primeira vez lotou completamente uma das maiores salas da mostra, é a história de um ginecologista, o doutor Travis de Dallas, Texas, Dr. T, profissional requisitado e sempre rodeado por muitas mulheres, seja no consultório com uma agenda inteiramente tomada, seja no dia-a-dia com a mulher, as duas filhas, uma cunhada e duas sobrinhas. Não é dos melhores da grife Altman, mas tem seus momentos.
É a minha declaração de amor às mulheres do Texas, disse o diretor em entrevista à Folha 2 no acolhedor bar do Hotel Excelsior. Aos 75, fisicamente transparece a idade que tem, mas a lucidez nas respostas pode ser sintoma de garantia de mais tempo de vida útil ao cinema. E se levarmos em conta os 92 de Manoel de Oliveira, que assina aqui um de seus filmes mais belos, Palavra e Utopia, Altman, como agora em Veneza, ainda vai dar dor de cabeça a muitos júris de festivais.
Procurei representar as mais diferentes maneiras de ser mulher. Elas são o público do filme. Estou certo que homens e mulheres vão assistir a dois filmes diversos. Alguém já disse que jogo com as mulheres. Nada mais falso: amo as mulheres e no filme este afeto é visível. O fato é que, nos Estados Unidos, existe sempre a ênfase do politicamente correto, e eu, com certeza, jamais fui politicamente correto. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O senhor nunca esteve ao lado do sistema. Com certeza pagou um preço por isso.
Não sou rico e nem mesmo vivo folgadamente. Este é o preço. Mas sempre faço o que quero, jamais aceitei qualquer compromisso. Creio que sou o único diretor responsável por erros e acertos que já fiz.
O casamento é um de seus temas preferidos. Ele está mais uma vez presente, agora em Dr. T. Por que ?
Creio no casamento, estou casado com minha terceira mulher há 41 anos, estamos sempre juntos, é a única que sabe o que estou sentindo só com uma olhada. Sugiro a todos o casamento. É só encontrar a outra metade certa, aquela que sobrevive serenamente e deixa as coisas ainda mais belas quando acabam o romance e o sexo.
Como nasceu seu amor pelas mulheres?
Cresci em Kansas Citiy com um pai ausente, num universo feminino, mãe, irmã, parentes, amigas. Nunca tive medo das mulheres, para mim sempre foram pessoas, ao contrário dos estereótipos criados pela mídia.
E o Dr. T do seu filme, ele também ama as mulheres?
Muitísimo, mas de uma maneira equivocada. Não as vê como pessoas. São objeto de interesse clínico, ginecológico. E é por amar assim que sua mulher acaba regredindo a um estágio infantil, internada com distúrbios mentais.
Onde o senhor mora atualmente?
Em Nova York, que não é propriamente a América. Em Los Angeles tenho uma casa que utilizado quando trabalho. A única vantagem de Los Angeles é o mar. Mas se Bush vencer a eleição em novembro não volto mais aos Estados Unidos.
Por que?
O seu recorde na aplicação da pena de morte é aterrador. Se ao mesno fosse um homem inteligente. É estúpido, sem idéias ou valores, somente aquilo que dizem os amigos do pai. Além disso, é dono de imenso poder econômico.
E Al Gore, seria melhor?
Não se apresenta bem, não fala bem, aparece como perdedor. Mas quando fala da família é sincero, não é como Clinton que permanece como um adolescente de 14 anos.
Qual sua previsão sobre a eleição?
Bush é muito hábil, e evita mostrar-se inteiramente como é. Tenho certeza que, se as pessoas o conhecerem melhor, terão certeza de sua estupidez. E farei tudo para ajudar a Gore contra Bush.
O senhor faria um filme sobre política?
A coisa não funciona assim para mim. Faço os filmes que me agradam fazer. Em novembro começo a rodar em Londres Gosford Park, uma história inglesa ambientada em 1933. É sobre o fascínio que a América exerce sobre o resto do mundo. E sobre a idéia de liberdade.





