Altamiro Carrilho toca no Teatro São Pedro com o grupo Nosso Choro
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2000
Por Mauro Dis 
São Paulo, 11 (AE) - O flautista Altamiro Carrilho faz show amanhã (12) e domingo no Teatro São Pedro, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, acompanhado pelo grupo Nosso Choro. Os integrantes do grupo são Maurício Verde (cavaquinho), Marquinhos (violão de sete cordas) e Marcelo (pandeiro). Maurício Verde, na verdade, é músico substituto - titular do Nosso Choro é Zé Barbeiro, que está tocando no musical "Noel - Feitiço da Vila"
sobre Noel Rosa, claro, em cartaz na cidade. Não seria possível conciliar os horários. Altamiro optou por trazer do Rio o novato Maurício Verde. É forma de dar vez a um talento que surge. É coisa que Altamiro faz questão de fazer.
Paladino do choro, aos 75 anos Altamiro Carilho está comemorando 56 de uma carreira sóbria, coerente, brilhante. Gravou 103 discos no Brasil e outros 8 no exterior. É um dos poucos artistas do mundo que podem contar vantagem assim: nunca ficou mais de um ano sem gravar. Nunca ficou sem ter onde tocar. Viveu sempre de sua música - do choro, especificamente. Por ele, com ele, viajou o mundo inteiro. Foi saudado, é saudado, como um dos maiores flautistas de todos os tempos. Músicos eruditos encantam-se com ele. Alunos de suas muitas master classes nacionais e internacionais aprendem com ele que o horizonte da flauta está mais distante do que sonham os compêndios. Qualidades - Sua extraordinária técnica lhe permite prodígios de execução - velocidade (que não é necessariamente qualidade, mas, no caso dele, sim), clareza de pronúncia, respiração impecável somam-se à inteligência melódica, ao conhecimento profundo da música brasileira (Altamiro é o rei das citações: seus improvisos sobre uma música mencionam outras músicas, voam sobre fronteiras, casam autores, transformam gêneros). Em 1997, ganhou o Prêmio Sharp de melhor instrumentista pelo CD "Flauta Maravilhosa", todo de composições suas: prelúdios chorões, valsas choronas, fugas choronas, forrós chorões.
É um perfeccionista, um virtuose. Sobretudo, é um chorão que manteve o gênero, convictamente, quando quase todos o abandonaram, no fim dos anos 60 e ao longo dos anos 70. Seu nome virou sinônimo de choro, ou chorinho - essa expressão musical tão brasileira, fruto do encontro da música de opereta européia com uma expressão urbana menos formal, de malícia sutil e síncope toda própria.
Altamiro Aquino Carrilho nasceu em Santo Antônio de Pádua, no interior do Estado do Rio. Aprendeu a tocar numa flauta de bambu, ainda menino. Foi até o curso primário - o pai ficou doente e ele precisou trabalhar para ajudar no sustento da família. Em Santo Antônio de Pádua, foi tamanqueiro e prático de farmácia. Nas horas vagas tocava tarola na Lira de árion, banda da cidade. A família mudou-se para Niterói. Continuou na farmácia, estudando música à noite.
Atravessava a Baía de Guanabara para ouvir Dante Santoro e Benedito Lacerda, nos teatros do Rio. Iniciava a adolescência e foi premiado no programa de calouros de Ari Barroso. Participou de conjuntos e estreou num estúdio de gravação em 1943, fazendo contraponto para o canto suingado de Moreira da Silva. Só em 1949 faria um disco como solista, "Flauteando na Chacrinha", choro seu.
No comecinho dos anos 50 substituiu o ídolo Benedito Lacerda no Regional do Canhoto, que tocava na Rádio Mayrink Veiga e acompanhava os grandes - Orlando Silva, Vicente Celestino, Sílvio Caldas. Fez cinema, como faziam as estrelas da música de então, e fundou, em 1955, a Bandinha do Altamiro Carrilho, que ensinou gerações a ouvir música boa. Foi, com a Bandinha, para a televisão, no ano seguinte - era o titular do programa "Em Tempo de Música", da TV Tupi, que ficou quase três anos no ar.
Começou a viajar para o exterior nos anos 60. Morou fora
deu aulas, formou chorões. A primeira flautista da Sinfônica de Nova York, Paula Robson, acaba de gravar um disco intitulado "Brasileirinho". De choros. Três deles de Altamiro. Mandou buscar as partituras e as gravações. Passou quatro meses ouvindo o autor e estudando as partes. Disse-lhe depois que jamais tocaria como ele: ansiava, no máximo, por uma aproximação. Momento privilegiado - "O choro vive um momento privilegiado", diz Altamiro. "Não só no Brasil, onde há grandes jovens chorões
mas em todo o mundo". Cita: há grupos de choro, formados por músicos americanos, em várias cidades (por onde ele, não por acaso, passou); há vários grupos de choro na Europa e sete no Japão. A atração fixa da boate Elizeth - em Tóquio, uma homenagem à grande cantora brasileira - é um grupo conjunto de choro formado por japoneses que nunca vieram ao Brasil. No repertório, Jacó do Bandolim, Patápio Silva, Altamiro Carrilho - a peça de resistência é um samba chorado dele, "Samba de Morro", gravado por ele em 1954.
Altamiro morou um ano no México. Deixou a semente do choro. "Os caras são ótimos e o trompetista tem como desafio tocar "Peguei a Reta", de Porfírio Costa, que é difícílimo", conta. Trompetista solando choro? Bem, os caras vão fazendo lá suas adaptações. De mariachi a Nazaré vai um longo caminho.
Contrariando opinião muito difundida e defendida, Altamiro diz que o choro não é o jazz brasileiro. O improviso do choro, na sua opinião, é muito mais difícil, porque respeita, obrigatoriamente, a concepção harmônica original do autor. Em todo caso, Altamiro acredita que a comparação possa ser benéfica: "Um jovem amante do jazz que ouça falar que o choro é o jazz brasileiro pode interessar-se pelo choro; vai descobrir um mundo novo", raciocina.
De fato, não importa muito. Altamiro já tocou em festivais de jazz e não interessa a ele se o fado se parece com o baião. Para que comparar? Ele gosta, mesmo, é de tocar e compor. Tocar Pixinguinha, Patápio, Benedito Lacerda, Jacó, Nazaré - gosta também de contar histórias. Inventa-as, com finalidade didática. Conta às suas platéias que Ernesto Nazaré estava havia muito tempo sem tirar férias.
Tocava diariamente no cinema Odeon e estava cansado. Um dia, disseram-lhe que poderia finalmente tirar uns dias de folga - mas encomendaram-lhe, ao mesmo tempo, uma música para o cinema. "A primeira parte reflete a alegria das férias próximas", inventa Altamiro. "A segunda parte, mais triste, veio da saudade que ele iria sentir dos amigos que, todos os dias, iam vê-lo no cinema".
É uma boa falsa história. Chama a atenção do público para o travo de melancolia, saudade, nostalgia, que todo choro guarda. As mais alegres músicas de Pixinguinha têm esse travo, as de Nazaré - o exemplo do Odeon serve para ajudar a entender. A quantidade de citações que Altamiro faz, quando toca, também tem caráter didático. Uma interpretação de Altamiro vai além do que o autor propôs: passeia por toda a música brasileira, expande-se, conta histórias, sem palavras, em todo caso claríssimas, acessíveis a quem quer que o ouça.
E Altamiro quer apenas que o ouçam. "Na minha idade, espera-se muito pouco da vida e eu já tive muito" - é verdade. É respeitado, reverenciado nos quatro cantos do planeta, famoso, não muito rico - mas o bastante para dar uma flauta de presente ao menino pobre que o visita no hotel e diz que quer ser como ele. Para que mais? Serviço - Altamiro Carrilho. Amanhã, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 10,00. Teatro São Pedro. Rua Barra Funda, 171, tel. 3667-0499


