Passe a assistir a partir de agora, observando atentamente, com olhos quase virtuais. Todos os trailers de filmes produzidos pelos grandes estúdios americanos estão saindo da linha de montagem não somente com antecedência cada vez maior em relação à data do lançamento - algumas produções ainda em fase de filmagem - mas também, e principalmente, estão sendo entregues ao público com repertório de apelos capaz de sacudir qualquer grau de indiferença. É claro que a fórmula, sofisticada e gerenciada pela ‘‘marketologia’’ de ponta, se aplica especificamente a filmes de ação. Mas tem inconvenientes e riscos, quando cérebros se colocam à frente de sentidos. Como, por exemplo, a descoberta de que o todo o filme acaba de ser contado - e não sugerido, como nos trailers convencionais - em cerca de três minutos, e que aquilo que se assiste em leitura visual dinâmica condensou todas as peripécias da trama. É o caso de ‘‘60 Segundos’’ (veja a programação de cinema na página 5).
Escrito pelo mesmo Scott Rosemberg de ‘‘Coisas Para Fazer em Denver Quando Você Está Morto’’ e ‘‘Con Air’’, produzido pelo Jerry Brukenheimer, ‘‘60 Segundos’’ tem atores em carne-e-osso na linha de frente - de fato, três ganhadores de Oscar. Mas não é preciso ir muito longe para reconhecer que eles estão ali somente trabalhando para viver. Os personagens não passam de clichês. A história é inverossímil e tola, nunca uma boa combinação. E a direção de Dominic Sena (‘‘Kalifornia’’) é parte desta nova realidade impressionista hollywoodiana: quando alguma coisa interessante dá início à construção dramática dos personagens, com respectivos perfis psicológicos, os cortes são mais rápidos e mais furiosos, há uma profusão de closes, a maioria inutil.
‘‘Gone in 60 Seconds’’, que chega ao circuito nacional a partir de hoje, abre com uma sequência espetacular. Um jovem ladrão, o exibicionista Kip (Giovanni Ribisi), rouba um carro de um showroom em Los Angeles. A façanha incomoda o inglês Calitri (Christopher Ecccleston), uma espécie de gangster de quem nunca se sabe as reais motivações. Apenas que é muito, muito mau. Para não liquidar Kip, ele força o irmão do rapaz, Randall (Nicolas Cage), a roubar 50 carros num espaço de 72 horas. O ultimato explica-se em parte. Randall, agora aposentado, é uma espécie de rei dos ladrões, um profissional refinado. Ele ama carros, e o filme não hesita em oferecer ao personagem diversos momentos que reforçam esta afetuosa relação com as máquinas, justificando a questão ‘‘o que é mais excitante, fazer sexo ou roubar carros ?’’...
Posta a questão, o que vem a seguir é o recrutamento da equipe capaz de executar mais esta missão impossível. Robert Duvall aparece como o mecânico, o bom sujeito que não pretende se envolver em nada ilegal. Mas, quem sabe? Angelina Jolie é outra ladra também fora do circuito e reconvocada, agora de bem com a lei. Mas, quem sabe? E outros mais se juntam ao time, como em tantos outros filmes em que grupos brilhantes são constituídos para buscar um objetivo comum. Há obstáculos, obviamente, como um cachorro que engole um envelope cheio de chaves de carros. Ou uma gang de rua que persegue Randall sabe-se lá muito bem por que.
Ao contrário de outros tempos, em que causas eram bem mais nobres, aqui louvam-se as habilidades do roubo. Alguém até pode justificar com a vida de Kip por um fio, mas e daí? Nesta mixórdia há um patético policial (Delroy Lindo), cuja único ideal na vida é perseguir e prender Randall. Ele sabe tudo, o paradeiro de seu ladrão preferencial, onde estão todos os outros, onde serão roubados os carros, e ainda assim não conseguem agarrar ninguém. Para quem se derrete diante de perseguições automobilísticas, a frustração. Apenas como referência recente, o ‘‘Ronin’’ de John Frankenheimer é muito mais adrenalina. Nicolas Cage é até divertido, enquanto Angelina Jolie continua caras e bocas, mascarando o talento. Se houver.
E para cinéfilos, uma dica para guardar. ‘‘60 Segundos’’ é a refilmagem de um cult dos anos 70, uma produção B - boa e barata - dirigida por H.B. ‘‘Toby’’ Halicki. O ‘‘Gone in 60 Seconds’’ original mantém até hoje uma extensa procissão de devotos, que jamais se esqueceram das sequências de perseguição automobilística durante os últimos 40 minutos de duração.

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