Parte da obra do poeta, dramaturgo e ensaísta Federico García Lorca (1898-1936) ganha nova tradução no Brasil. O professor Marcus Mota, docente da disciplina de Teoria e História do Teatro da Universidade de Brasília, realizou primorosa tradução das peças ‘‘A Casa de Bernarda Alba’’, ‘‘Yerma’’ e ‘‘Assim que Passarem Cinco Anos’’, além de um livro de conferências.
Marcus Mota apresenta uma qualidade rara nos tradutores de peças teatrais – ele possui um bom ouvido, resultando num trabalho com ritmo e fluência. O pacote lorquiano, editado pela Universidade de Brasília e Imprensa Oficial de São Paulo, difere das traduções dos textos literários, restritas apenas à leitura silenciosa. Nesse caso, a tradução conduz à encenação.
Pode-se perceber a evolução do dramaturgo, principalmente em sua última e máxima obra ‘‘A Casa de Bernarda Alba’’. Na peça, a matriarca mantém cinco filhas sob vigilância irredutível. Como consequência, as mulheres inflamam-se de desejo. A vida proibitiva remete à Espanha franquista que dizimou Lorca. No cárcere domiciliar reina a eterna vigília do comportamento alheio. Para as mulheres que habitam a casa de Bernarda, o único refúgio é o casamento, estabelecido numa ordem social intransponível.
‘‘Uma filha que desobedece deixa de ser filha para se converter em inimiga’’, diz Bernarda, estabelecendo os rígidos padrões de convivência. Por isso, as torrentes de desejos reprimidos geram na casa da exigente Bernarda disputas de vida e morte por um homem. Pepe e Adela se entregam aos prazeres num estábulo, como se o sexo fosse relegado aos animais. Neste texto, percebe-se a capacidade do autor em inflamar a imaginação do leitor. Ele se utiliza da figura inquisidora de Bernarda Alba para retratar o controle do estado sobre o cidadão.
Na galeria de grandes personagens femininos de Lorca, ‘‘Yerma’’ tem lugar de destaque. Inconformada com a infertilidade, Yerma sobrevive num mundo habitado por mulheres fecundas. Nesse desconsolo da natureza, ela faz da vontade de ser mãe o único objetivo de vida. Quando surge a possibilidade de viver outro relacionamento, ela refuta em busca de seu caminho trágico e funesto.
Há de se destacar a linguagem poética da peça. Enquanto para algumas os filhos ‘‘chegam como água’’, Yerma indaga às mais velhas: ‘‘por que estou assim seca?’’. As lavadeiras, remetendo ao coro grego, cantam baixinho: ‘‘Coitada da casada vazia!/Coitada da que tem seios de areia!’’. Numa época em que o único papel da mulher era o de reprodutora, as inférteis padeciam numa condenação eterna.
Quando Lorca escreveu ‘‘Assim que Passarem Cinco Anos’’, mal sabia o caráter profético do título da peça. Cinco anos depois de escrever esse texto, morreu fuzilado pelos partidários franquistas. Escrito em 1931, esse é um dos textos menos conhecidos de Lorca, sendo considerado um experimentalismo poético do autor. Lorca parodia os melodramas familiares, desafia a estrutura linear do enredo, as convenções do realismo e naturalismo. Manequins que falam, jogadores de rugby, noivas que fogem, arlequins e palhaços se sobrepõem em cenários e tempos que mudam abruptamente. A necessidade de encontrar-se como dramaturgo levou Lorca a escrever ‘‘Assim que se Passarem Cinco Anos’’, revisitando criticamente as vanguardas do início da década de 30.
Completando o pacote de Lorca, Marcus Mota apresenta um lado pouco conhecido do espanhol, o de ensaísta. No ensaio mais importante (‘‘Cante Jondo: Primitivo Canto Andaluz’’), ele trava contato com a filiação árabe e moura da cultura espanhola, que influenciou até o compositor francês Claude Debussy. O patético é a característica essencial do cante jondo e, segundo Lorca, os andaluzes não apreciam meio tons. Poeticamente, essa modalidade musical revela um povo acomodado que espera inutilmente o sinal salvador. ‘‘Somos um povo triste, um povo estático’’, diz Lorca na conferência sobre a tradição de sua terra natal.

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