A maternidade é maravilhosa. Até começar a dar errado. Alguém até já se atreveu a sugerir, contrariando o sentimento geral nas lojas com maternais alusões comemorativas que – cuidado ! – ela pode ser uma armadilha. Uma armadilha para as mulheres, claro.

Sob o imperativo materno, as mulheres são idealizadas enquanto não se estressam e se conformam. Assim que o menor sinal de descontentamento aparece, ou as expectativas não são atendidas, o mesmo entusiasmo com que são santificadas é usado para repudiá-las.

Poucos assuntos, portanto, são terreno tão fértil para o melodrama quanto para o horror como a maternidade. Nela residem tanto os instintos mais profundos quanto as dinâmicas de poder e submissão mais arraigadas. E assim por diante, all inclusive, claro que com direito à elucubrações psicanalíticas – a personagem, Linda, é terapeuta.

Digamos apenas que "Se Eu Tivesse Pernas eu te Chutaria/If I Had Legs I'd KickYou", da quase estreante Mary Bronstein e em lançamento exclusivamente no Cine Ouro Verde a partir de segunda feira (11), está perfeitamente ciente tanto do parágrafo anterior quanto da já longa e recente tradição em torno do tema.

“A Filha Perdida”(2021) , de Maggie Gyllenhaal, passando por “Lady Bird” (2017), de Greta Gerwig, ou, como um modelo de pânico autêntico, “Precisamos Falar Sobre o Kevin”(2011), de Lynne Ramsay, todos são filmes que explodem exatamente onde mais dói, no lugar quase sagrado das ideias, que, por serem consideradas como certas, acabam nos ferindo.

A ideia é tão radical quanto simples: colocar a câmera diretamente dentro da cabeça de uma mulher sobrecarregada não tanto pelas circunstâncias da maternidade complicada : a filha está doente, o pai está ausente, a casa quase caindo aos pedaços. Ela, a mãe, assombrada por um sentimento de culpa (algo que todos nós contribuímos como sociedade) com a forma, o tamanho e a profundidade do mais profundo dos buracos.

Um dia ela, a mãe (assombrosamente interpretada por Rose Byrne em papel da contemporaneidade), é surpreendida por um desabamento na casa que destrói quase tudo. Um buraco se abre no teto, por onde entra um dilúvio que leva tudo embora. A partir daí, é forçada a viver em um hotel que é simultaneamente prisão, campo de refugiados, câmara de tortura e uma metáfora perfeita para todos nós. Parece aterrorizante, e de fato é.

Mary Bronstein posiciona sua lente a meros centímetros do rosto da protagonista, permitindo que a sensação crua de terror se desenrole fora de cena, nas sombras, mas ao mesmo tempo extremamente próxima. Essa é a aposta, e quase o milagre: tudo o que é invisível, é doloroso e, além disso, reside dentro de nós, não fora.

De fato, vemos o rosto da filha doente apenas por um breve instante, e mesmo assim, muito, muito tarde. Cada plano começa e termina com o rosto de uma atriz que, após papéis prolíficos em dramas há algum tempo, dedicou-se exclusivamente à comédia. O que tanto a diretora quanto sobretudo Rose Byrne alcançam é simplesmente prodigioso: algo à maneira kamikaze, descarado, visceral, verdadeiro, sombrio, e engraçado à sua maneira.

E simplesmente porque sim. “Se Eu Tivesse Pernas te Chutaria” vai construindo gradualmente a tensão até transformar o espaço real e completamente plausível em que se desenrola na matéria ácida, imprecisa e muito perturbadora dos sonhos, naquele exato momento do meio-sono, aquela hora do lobo disponibilizada por Bergman quando a realidade perde o equilíbrio, o medo e a ansiedade se intensificam, quando o som do despertador se confunde com os primeiros acordes das trombetas bíblicas de Jericó, quando o suor parece frio demais.

Mary Bronstein dirige um daqueles filmes com a dose exata de charme e amargura capaz de se tornar um dos imperdíveis do ano. Entre vários ótimos apelos está a extraordinária capacidade da atriz Rose Byrne de trazer para cada cena exatamente o que o filme exige dela, seja crueza, fragilidade, nervosismo, estupefação, volatilidade ou, ocasionalmente, várias dessas emoções ao mesmo tempo, mostrando que é capaz de ser mordazmente engraçada em uma cena e partir o coração da plateia na seguinte.

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