Entender o que leva alguém a escalar as montanhas mais altas do planeta não é algo fácil. Algumas ideias inundam o imaginário como a audácia de superar limites. A coragem de enfrentar desafios. A fibra de suportar a adversidade. A loucura calculada de atingir determinado objetivo. A ousadia de superar obstáculos. A resiliência em vencer o mundo. Não é sem motivo que o alpinismo é utilizado como metáfora de empreendedorismo.

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Na vida real, com alguém agarrado numa pedra que pode despencar no abismo, as coisas não são imaginárias. Passar por privações e desconfortos, correr perigo, estar sujeito a acidentes trágicos e enfrentar situações que podem levar à morte, fazem parte da realidade. Escalar montanhas não pode ser descrito como um paraíso. Então, afinal como entender o que leva alguém a escalar montanhas?

O jornalista e escritor norte-americano Jon Krakauer procura responder essa questão em “Sobre Homens e Montanhas”, obra que acaba de ser lançada em formado de bolso pela editora Companhia das Letras. O livro reúne ensaios, artigos e reportagens escritas pele autor ao longo dos anos em que se dedicou em acompanhar o universo do alpinismo em várias regiões do mundo.

Jon Krakauer deixa claro que não pretende responder a questão de maneira objetiva com as razões e os motivos que levam pessoas a arriscarem a vida para escalar montanhas. Seu caminho é outro: “Cerco a questão continuamente, aqui e ali me ponho a cutucá-la, cauteloso, com a ponta de uma vara bem comprida, mas em nenhum momento salto para dentro da jaula e enfrento a fera corpo a corpo. Mesmo assim, creio que o leitor terá a noção mais clara, não apenas porque os escaladores escalam, como a razão que leva isso a tornar-se obsessão para eles.”

Ao longo dos textos de “Sobre Homens e Montanhas” a obsessão se revela o elemento primordial. Em todas as histórias de alpinistas, ou em relatos de montanhas a serem vencidas, há uma história de obsessão. Um exagero desarrazoado que pode ter várias faces, vários níveis, mas lá dentro, dentro da pedra ou do gelo, sempre existe o vírus da obsessão.

Esse elemento obsessivo também aparece em outro livro de Krakauer, “No Ar Rarefeito” (Companhia das Letras, 1997), em que o autor narra sua experiência em escalar o Monte Everest. Ao chegar o cume após 56 horas sem dormir, completamente exausto, com o corpo quase congelado e zonzo pela falta de oxigênio, Krakauer permaneceu no ápice do ponto mais alto do mundo por dois minutos, completamente sem forças e sofrendo alucinações. Apenas tirou uma foto, virou as costas e começou a descida. Na expedição que integrava, cinco alpinistas morreram e outros tantos precisaram amputar dedos dos pés e das mãos que haviam necrosado por congelamento. Tudo consequência de vários graus de obsessão: “O alpinismo costuma atrair homens e mulheres que não abandonam seu objetivo”.

Jon Krakauer: “Quem decide participar desse passatempo perigoso não o faz a despeito de seus lances fatais, mas precisamente por causa deles"
Jon Krakauer: “Quem decide participar desse passatempo perigoso não o faz a despeito de seus lances fatais, mas precisamente por causa deles" | Foto: Divulgação

Em “Sobre Homens e Montanhas” Jon Krakauer também revela como o alpinismo, seguindo o caminho de outros esportes de aventura, se tornou cada vez mais desafiador em decorrência da inovação e pela busca por novidades: “Quando foi inventada, há duzentos anos, nos Alpes, a escalada de montanhas era um esporte simples: a pessoa escolhia para si uma montanha, quanto maior melhor, e tentava subir até o topo. Com o passar do tempo, porém, todos os mais altos cumes foram alcançados e os alpinistas que buscavam notoriedade foram forçados a voltar-se para faces e arestas cada vez mais difíceis em picos que já haviam sido escalados. Por fim, a busca de desafios cada vez maiores e de terrenos verticais virgens evoluiu até o ponto em que, para muitos escaladores, alcançar um cume geograficamente significativo deixou de ter qualquer interesse; desde que a escalada fosse suficientemente difícil e suficientemente íngreme para fazer a adrenalina fluir em abundância, não fazia diferença o objeto ser um alto pico do Himalaia ou uma pedreira na Inglaterra. Ou até mesmo uma cascata congelada no Alasca.”

Existem perigos, adversidades, obstáculos e desafios. Sempre existem. E talvez seja justamente a possibilidade de perigo que impulsione pessoas a escalar montanhas. Nas palavras de Krakaeur, “quem decide participar desse passatempo perigoso não o faz a despeito de seus lances fatais, mas precisamente por causa deles”.

Ou, quem sabe, tudo não se trate de apenas seres humanos subindo montanhas demasiadamente humanas.

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SERVIÇO

“Sobre Homens e Montanhas”

Autor – Jon Krakauer

Editora – Companhia de Bolso

Tradução – Carlos Sussekind, Pedro da Costa Novaes e Rosita Belinky

Páginas – 240

Quanto – R$ 34,90

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