De repente, a grande surpresa na programação de cartas marcadas de final de ano. O exibidor local, talvez movido por rasgo de inesperada generosidade bafejada pelo espírito natalino, presenteia a enorme carência de determinado segmento de público com uma iguaria digna das mais exigentes ceias. A partir de hoje e por quanto tempo nem Papai Noel sabe entra em exibição, em Londrina, o mais recente Almodóvar, ''Fale com Ela'' (veja a programação de cinema na página 2), a imensa e definitiva pedra no caminho de qualquer candidato potencial ou já declarado a Globo de Ouro ou Oscar de melhor filme estrangeiro. O filme, lançado ainda no primeiro semestre, iniciou há pouco uma esperada carreira de coletor de prêmios, como o destinado a melhor longa europeu da temporada, e mesmo se conhecendo os destaques de várias partes do mundo surgidos em 2002 o favoritismo de ''Hable com Ella'' vem se acentuando.
Benigno e Marco não se conhecem mas estão lado a lado na platéia de um espetáculo de balé, ''Café Muller'', coreografado por Pina Baush. A peça é comovente e Marco se emociona. Percebendo as lágrimas do vizinho, Benigno bem que gostaria de dividir esta emoção, mas não ousa se aproximar. Algum tempo depois, em uma nova clínica de Madrid, ''El Bosque'', o jovem enfermeiro Benigno (Javier Câmara) faz cuidadosamente a higiene no corpo de uma paciente em coma, a jovem e bela bailarina Alicia (Leonor Watling). Lenta, pacientemente, ele a envolve em lençóis. Lídia (Rosário Flores), amiga do escritor argentino Marco (Dario Grandinetti), é uma toureira também em coma depois de um gesto misteriosamente suicida durante uma corrida. Quem cuida dela, num quarto vizinho, é justamente Marco. Quando este passa perto do quarto de Alicia, Benigno desta vez não hesita e se aproxima dele. Eles se falam e é o início de uma grande amizade. Mas o sempre desconcertante Almodóvar faz com que sua história dê voltas. Ainda bem.
A propósito: pode um filme sobre a violentação de uma mulher em coma ser ao mesmo tempo comovente, caloroso e ainda bem-humorada ? Pode, se é ''una película de Almodóvar''. Esta ação sexual em ''Hable com Ella'' poderia ser terrível, ou até nauseante. Mas a imaginação ilimitada do diretor confere o calor humano a seus dois protagonistas homens. A estilização e a modificação do mundo real em que ocorre a violentação neutralizam a possível repulsa, convertendo o momento em lástima e alienação
''Fale com Ella'' é mais caloroso e menos ''florido'' e extravagante, menos tresloucado que muitos de seus filmes anteriores. Mas em cada fotograma estão impressas suas marcas: a teatralidade, o suspense malevolamente efetivo, as aventuras da identidade e da sexualidade. No filme anterior de Almodóvar, o merecidamente aclamado ''Todo Sobre Mi Madre'', os homens morriam ou faziam prótese nos seios, se transformavam em mulheres e prostitutas. Parecia que não ia mesmo ter jeito de ser homem nos filmes do diretor homossexual espanhol, 49 anos. Mas ele desautoriza o dogmatismo e afirma: os homens podem adorar as mulheres. Marco e Benigno, dois seres opostos, geram um vinculo centrado neste objetivo.
Mais conhecido como diretor de mulheres, Almodóvar agora coloca homens no centro das atenções. As camas do hospital são os altares onde eles puseram suas deusas. Marco e Benigno não têm nenhum pudor em entrar em contato com seu lado feminino. Almodóvar garante: a sensibilidade feminina é uma prerrogativa masculina. O Benigno vivido por Javier Câmara é profissionalmente exemplar e sempre sensível diante de seus pacientes. Alguma coisa afetado, mas não ostensivamente. Já o Marco de Dario Grandinetti é duro e masculino, mas não se envergonha de derramar lágrimas quando o teatro ou a musica o comovem.
A amizade entre os dois homens, surgida ao redor e sobre os corpos meio despidos das duas mulheres em coma, é estranha. Mas suavemente estranha. Almodóvar nos introduz na narrativa de maneira lenta, terna, e fundamenta sua construção psicológica sobre uma situação arrepiante, voltando ao passado, envolvendo Benigno e sua mãe. Em determinado momento o diretor dá uma reviravolta assombrosa, mas não sem antes preparar o espectador. É quando entra em cena um curta-metragem de cinema mudo a que Benigno diz ter assistido. No filme dentro do filme há ecos de episódios paranóicos e surrealistas em chave de Luis BuÀuel, ou mesmo Fellini. Outra inusitada e brilhante criação deste criador que não cansa de surpreender.
Nesta sua décima quarta produção, Pedro Almodóvar se permite mais um vez experimentar com uma narrativa que constantemente quebra os tempos do relato. Ele se arrisca a construir um flashback dentro de outro, maneja simetrias perfeitas, introduz o citado curta-metragem surrealista de sete minutos, em branco-e-preto, intitulado ''Amante Encolhido'' (inspirado no clássico da ficção-científica ''O Incrível Homem que Encolheu'', de Jack Arnold um homem minúsculo se refugia na vagina de sua imensa amante.
Melodrama às vezes hilariante, às vezes comédia trágica, ''Hable com Ella'' é um filme estranho mas que está sempre buscando o ápice da emoção, o melhor da inspiração e os achados formais aquele coquetel finíssimo que caracteriza o melhor Almodóvar. É um épico sobre a paixão amores desesperados que podem levar à loucura ou à morte e uma despojada exploração da solidão, amizade e identidade sexual. E é também uma deliciosa homenagem à história do cinema, na qual convivem em harmonia os gêneros que felizmente fizeram a cabeça do diretor, dos clássicos mudos ao suspense hitchcockiano, passando pelo surrealismo buÀueliano e pela comédia amalucada de Preston Sturges e Ernst Lubitsch.

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