Almodóvar em fusão explosiva
Celso Mattos
Crespular como um faroeste, tenso como um trilher policial e arrebatador como um melodrama, Carne Trêmula, de Pedro Almodóvar, é um verdadeiro carrossel de emoções. Esta obra do diretor espanhol, que acaba de chegar às locadoras, é um maravilhoso exercício de cinema na qual Almodóvar tece suas tramas regadas a paixões exacerbadas porque, através delas, consegue falar sobre os personagens que o atraem: aqueles que perdem o controle de suas vidas e vivem o amor de forma impulsiva, quase desesperada. O que interessa a Almodóvar é o impulso que alimenta a vertigem e o labirinto de paixões. Seu filme beira a genialidade.
Um das cenas mais belas de Carne Trêmula mostra os personagens Victor (Liberato Rabal) e Francesca Neri (Elena) vivendo uma noite de sexo. O cineasta filma os corpos enroscando-se de tal maneira que o espectador não consegue definir direito o que é masculino e feminino. Ficam apenas o côncavo e o convexo, o yin e o yang. Carne Trêmula além de mostrar um Almodóvar mais maduro, consagra-o como um dos maiores criadores contemporâneos. É um dos poucos diretores da atualidade que consegue extrair emoções genuínas da confluência entre o sublime o grotesco. Com isso, ele se aproxima de artistas como Rainer Werner Fassbinder, Emir Kusturica, Fellini e Buñel.
Intenso, barroco e sensual, Carne Trêmula não é um filme para ser contado, mas visto. De coração aberto, deixando os sentimentos fluírem, sem medo de se perder num labirinto de desejos. É como descer uma montanha russa, é puro êxtase. É uma mistura de prazer e dor, uma viagem ao interior de corpos onde pulsa a paixão em estado bruto. Com atores belos e talentosos - Francesca Neri, Liberato Rabal e Javier Bardem - interpretando personagens que vão além da tênue linha que separa a normalidade da loucura, Almodóvar funde amor e política, sangue e sexo, morte e renascimento, usando como pano de fundo uma Madri decadente e um país entre a ditadura e a liberdade.
A exemplo de Fassbinder, os personagens de Pedro Almodóvar são como vagalumes bêbados que têm no brilho dos olhos a única luz que vislumbra o mundo solitário em que vivem. São essas figuras regadas a poesia que fazem de Carne Trêmula uma passagem para o lado sombrio de nossas mentes, onde o limite entre consciente e inconsciente tem a espessura de uma lâmina. Ao exercitar o melodrama com corte buñueliano, Almodóvar convida o telespectador a despir-se de modelos pré-concebidos e embarcar numa viagem na qual o destino depende da coragem do viajante de expor os mais camuflados sentimentos. Como um filósofo de subúrbio, Almodóvar faz o Ser bailar ao som de música brega e à luz intensa do fotógrafo brasileiro Affonso Beato. Um filme imperdível!Lançamento da Abril Vídeo. Duração: 100 minutos.Intenso, barroco e sensual, Carne Trêmula consegue extrair emoções genuínas da confluência entre o grotesto e o sublime
DivulgaçãoOs personagens de Carne Trêmula têm no brilho dos olhos a única luz que vislumbra o mundo solitário em que vivem





