Almodóvar em Cannes não entusiasma
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terça-feira, 19 de maio de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha2 
As expectativas eram muito otimistas para o mais recente filme de Pedro Almodóvar, ''Los Abrazos Rotos'', mas ficaram a meio caminho. ''Don'' Pedro deu um tempo na criatividade e contou uma história diferente, mas muito parecida com as anteriores que assinou. Lembra um pouco comida requentada. Gostosa, mas já saboreada outras vezes. Aparentemente ele muda aqui e ali uma coisa ou outra, mas segue o princípio esperto de mudar para que tudo permaneça o mesmo - o que de resto não é nenhum demérito, mas cansa. Nada há aqui de surpreendente e genial como, por exemplo, ''Tudo Sobre Minha Mãe'' ou ''Volver''.
Como sempre a tessitura do melodrama é pontilhada pela diligente afeição que o cineasta nutre pelo gênero. A trama passa obrigatoriamente pelos caminhos cruzados, pelos desencontros entre passado e presente, pelos embates homem-mulher, pelos ciúmes pelos segredos carregados vida afora e por revelações mais redentoras que punitivas. E como de hábito, a imaginação febril de Almodóvar dá voltas e voltas e recheia a argumento de desdobramentos que, à falta de maior densidade (leia-se originalidade), não há talento e beleza de Penélope Cruz que segurem por muito tempo. Nestes ''Abraços...'', mais uma vez o autor recorre ao cinema: um roteirista e diretor, agora cego, é o epicentro dos acontecimentos.
Estranhamente, a primeira sessão para a imprensa e a entrevista coletiva logo após não estavam tão concorridas como se esperava. E o próprio desenrolar da conversa de certa forma reafirmou a apatia durante a projeção, seguida de aplausos discretos. Ao lado dos principais nomes do elenco, Almodóvar também se acomodou ao clima sonolento e a conversa com os jornalistas transcorreu em ritmo de repartição pública.
''Anticristo'' é a reafirmação da farsa em que se transformou o dinamarquês Lars von Trier, hoje antes um homem de marketing do que cineasta. Misógino a mais não poder, bizarro, manipulador e sensacionalista de ocasião, ele trouxe à seleção um estranho mix de horror gótico com drama psicanalítico. E tentou justificar, afirmando que o filme foi concebido logo após uma crise depressiva que o deixou imobilizado por dois anos.
No filme, William Dafoe e Charlotte Gainsbourg são o casal que vive além dos limites do sofrimento após a morte trágica do filho pequeno, enquanto faziam sexo. A partir daí, os dois e mais Eros, Tânatos, O Exorcista, Dr. Freud, o Discovery Channel e outras influências convocadas para a ocasião confluem para a casa deles na floresta, sugestivamente chamada de Éden. Ali a mulher, tomada de fúria literalmente castradora, desencadeia as forças primais.
Ah, sim, ia me esquecendo: na coletiva von Trier disse que era o maior cineasta do mundo...


