São Paulo, 16 (AE) - Saravá, jongo, saravá. Almir Guineto está de volta. Seu novo disco - que possivelmente vá se chamar "Terreirão" - abre-se com a regravação de "Caxambu" (de Jorge Neguinho, Zé Lobo, Bidubi do Tuiuti e Hélio do Pagode)
flautas e tambores marcando o ritmo até que o saravá, jongo, quero ver, surja na voz rouca e negra, uma das vozes mais negras da história de samba, um contraponto masculino ao canto de senzala de Clementina de Jesus.
Depois vêm as palmas do terreiro, a celebração dos coristas e pastoras: "Deu meia noite, o galo já cantou/ Na igreja bate o sino, é na dança do jongo que eu vou/ àlha vamos da dança do caxambu/ Saravá, jongo, saravá". É quase como se o ouvinte, privilegiado, pudesse visitar as raízes profundas da cultura popular. Com arranjos de Paulão, violonista preferido por dez entre dez sambistas da melhor estirpe -, "Terreirão" (ou seja como venha a ser chamado) é desses discos que merecem, antes de mais nada, o elogio da obra-prima.
Almir, trazido do ostracismo a que em parte foi levado pela crueldade da indústria, em parte por problemas pessoais de saúde, ressurge com aval da indústria, que cedeu à pressão do "cumpádi" Zeca Pagodinho. Para os que se esqueceram, Almir regravou preciosidades do repertório antigo: "Jibóia" (de Bilani Silva e Bombril), "Mel na Boca" (Davi Correia), "Conselho" (Adilson Bispo e Zé Roberto), "Pedi ao Céu" (Almir e Luvercy Ernesto), o lindo samba lento "Lama nas Ruas" (Almir e Zeca Pagodinho, aliás, um dos primeiros sucessos de Zeca) e o genial "Saco Cheio" (D. Fia e Marquinhos): "Tudo que se faz na Terra se coloca Deus no meio/Deus já deve estar de saco cheio". Filosofia de botequim? Pois é, então.
O jongo novo, "Terreirão" (Almir, Davi Correia e Jorge Machado), dá o tom do que são as músicas novas. Abre chamando, surdo, cordas violadas, reco-reco: "Í de casa, quem tá chegando é reisado/ Chapéu colorido e espada" - ramo de arruda, rezas, bananeira, água doce de beber e: "Se você não me der nada/ Pela vida vai sofrer". O Divino alumia a lua nova. João da Baiana chama, Candeia no terreirão, Clementina vadiando.
Almir assina com Júlio Menino e J. Laureano o partido "Mais Duro que um Coco" ( "... sem dinheiro pra gastar/ Às vezes vendendo o almoço/ Pra poder jantar/ Com sorriso no rosto/ Pro vizinho não notar/ Comendo sopra de letrinhas do jornal que encontrar". Crítica sociológica de botequim? Então muito bem. Mas é vida real. E nela cabe humor.
O cantor solta o vozeirão de ecos ancestrais no belo samba lento, romântico (e cabe a ressalva: sempre houve bons sambas românticos, de Nelson Cavaquinho e Cartola a Zeca Pagodinho e Dudu Nobre) "Para Não Deixar Morrer um Grande Amor" (Almir, Celso Leão e Passarinho), de versos cheios de dor
e volta ao samba em "Donzela Flor" (Almir e Luvercy Ernesto): "Í, iaiá, o seu nome, donzela flor/ Tatuei no peito porque é pra me dar calor".
Há, nos "Lábios" da mulher amada, descrita por Almir e Luvercy Ernesto, "mistérios no atacado e no varejo"; e a companhia dela faz do cantor "Rei por um Dia", no samba de Carlos Caetano e Moisés Santiago. A edição final do disco talvez deixe de fora "Insensato Destino", de Acyr Marques, Chiquinho e Maurício Lins. Tomara que não.

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