Em 1945, Fritz Lang associou-se de novo ao trio de intérpretes do seu cultuado ''Um Retrato de Mulher'' - Joan Bennett, Edward G. Robinson e Dan Duryea - e fez ''Almas Perversas''. O filme retoma até o tema da pintura do anterior, mas o curioso é que se trata do remake de um clássico do francês Jean Renoir nos anos 1930. Jean, filho do grande pintor impressionista Auguste Renoir, havia feito ''La Chienne'', com Michel Simon e Janie Marese, em 1931. Ernst Lubitsch, grande admirador do filme, queria refazê-lo nos EUA e convenceu a Paramount a comprar os direitos, mas desistiu do projeto.
Lang levou-o adiante e trabalhou no roteiro com Dudley Nichols. Veio dele a idéia de transpor a trama que se passava em Montmartre para o (então) bairro boêmio de Nova York, Greenwich Village. Mas Lang não conseguiu manter o título de Renoir, como queria. Um filme americano chamado ''A Cadela'' era inviável, ontem como hoje. Na trama, Edward G. Robinson faz funcionário medíocre que tem a pintura como hobby, mas a mulher megera o força a pintar no banheiro. Ele se envolve com Joan Bennett, que o convence a alugar um loft para ela, sob a alegação de que poderá ser usado como estúdio.
Joan tem um amante (gigolô?). Dan Duryea leva um desses quadros a um marchand, que o avaliza como grande obra de arte e diz que vale ouro. A dupla convence Robinson de que Joan deve assinar a obra. O resto você pode imaginar - Robinson comete um assassinato, vira mendigo que dorme no Central Park e, na noite de Natal, vê o quadro que foi motivo de seu infortúnio sair da galeria para ornamentar a parede de algum milionário, enquanto ele está ali jogado, na rua.
Todo Lang está presente neste clássico noir. A fotografia em preto-e-branco cria um universo de sombras no qual o (anti)herói do diretor se bate, para perder, contra as forças muito mais poderosas do destino. Muitos críticos sempre estranharam que o ''Código Hays'', que regia o uso do sexo e da violência na tela, tenha deixado Robinson impune no fim de ''Almas Perversas''. Impune, o próprio diretor perguntava? Uma ruína humana como Robinson, no fim de ''Almas Perversas'', sofre a pior condenação, ele dizia. Lang, vale lembrar, assinou outro remake de Renoir. ''Desejo Humano'', de 1954, baseia-se em ''A Besta Humana'', de 1938.

Serviço:
- ''Almas Perversas''. Scarlet Street. EUA, 1945. Direção de Fritz Lang. DVD da Aurora. Nas lojas, R$ 35,90

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