Alma megalômana e espaços infindáveis
Outro símbolo do poder que tanto precisa da exibição do limite quanto do segredo é a Cidade Proibida, residência dos imperadores da dinastia Ming e Qing.
Vejo primeiro esta cidade andando à sua volta. À noite. Ora olhando o guarda passar com um mesmo passo militar, ora ouvindo a mais doce das flautas.
Vistos de fora, os pavilhões parecem carros alegóricos da Marquês de Sapucaí e eu constato que as cores de todos eles são o verde, o rosa e o ocre as três cores imperiais.
O passeio mostra que a Cidade Proibida é imensa e eu deduzo que o tamanho da Praça Tienanmen não é só uma expressão da megalomania comunista. Tem a ver com a própria alma chinesa, que produz e reproduz espaços infindáveis, como aliás o do próprio país.
Visitar a residência dos Ming e dos Qing é passar de um a outro pátio, de um a outro pavilhão, de uma porta a outra. Sempre vendo tetos cor de ocre que lembram o Oswald do Manifesto da Poesia Pau-Brasil: A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.
Em suma, é fazer uma travessia poética, ora olhando os pavilhões onde o imperador vivia com a esposa e as concubinas, ora os outros onde quem imperava era Cixi, a subconcubina que se tornou imperatriz, driblou todas as regras de sucessão para ficar no poder até a morte e é mais cultuada hoje na China do que o próprio Mao Tse Tung.
E fazer a visita também é atravessar jardins de ciprestes onde os imperadores compunham poemas e a flor de lótus brota exibindo-se com pétalas de seda.
Quem prestar atenção nos nomes dos lugares será por eles acalentado: Hall da Suprema Harmonia, Palácio da Pureza Celeste, Sala da Potente Fertilidade, Sala da Tranquilidade Imperial. Nomes que, sugerindo a felicidade, não impedem que se imagine a infelicidade gerada pelas intrigas palacianas, da corte, das esposas e das concubinas.
Para saber da história detalhada, o melhor é alugar um áudio na entrada da Cidade e fazer a visita escutando. Quem puder deve começar cedo e voltar no dia seguinte. Trata-se de um ponto turístico tão concorrido quanto a Basílica de São Pedro em Roma.





