Nos dias que estamos de cara amarrada, azedos como limão, o ideal é ficarmos sozinhos, quietos num canto. Se estiver frio, melhor encolher-se sob dois ou três cobertores. Um livro de poemas também ajuda um bocado.
Assim como o cobertor oferece calor aconchegante, a poesia oferece uma visão de mundo diferente daquela que estamos acostumados no dia-a-dia. Através dela, podemos ver as coisas com outros olhos, e assim, entender muitas coisas sobre nós mesmos.
Se você desejar escolher um poeta nessas horas, uma boa dica é José Paulo Paes. Ele possui o dom de ser simples e espirituoso em seus versos. Transforma elefante em formiga e formiga em elefante sem mágicas mirabolantes, sem pretensões.
Paulista do interior do estado, José Paulo Paes morreu em 1998 deixando dezenas de livros, grande parte muito legais. Deixou também alguns livros inéditos. O primeiro deles está sendo lançado essa semana pela Editora Ática com o título ‘‘Vejam Como Eu Sei Escrever’’ ilustrado por Alex Cerveny.
A obra reúne 10 poemas sobre variados temas como água, televisão, esporte, escola, casa, infância, zoológico e dentista. Dentista? Sim dentista. Você nunca poderia imaginar que alguém fosse capaz de escrever um poema sobre dentista, mas Paulo Paes foi capaz. Veja: ‘‘Dentista é onde os dentes têm que ir quando estão doendo. / Então eles passam de ‘dentes’ a ‘doentes’. / Como os dentes não sabem ir sozinhos ao dentista, a gente tem de ir com eles. / Todo mundo fica de boca aberta diante do dentista. / Acho que é para poder berrar mais alto. / Se não fosse o dentista, a gente ficava banguela para sempre, como elefante de circo. / O elefante não dá muito trabalho ao dentista do zoológico porque só tem dois dentes.’’
Com esses versos já dá para perceber o tom dos poemas de ‘‘Vejam Como Eu Sei Escrever’’. Paulo Paes veste a alma de menino e, sem medo, atira-se com liberdade na aventura das palavras. Veja só: ‘‘Televisão é uma caixa cheia de imagens que fazem barulho. / Quando os adultos não querem ser incomodados, mandam as crianças assistir televisão. / O que eu gosto mais na televisão são os desenhos animados de bichos. / Bicho imitando gente é muito mais engraçado do que gente imitando gente, como nas telenovelas. / Não gosto muito de programas infantis com gente grande fingindo de criança. / Em vez de ficar olhando essa gente brincar de mentira, prefiro brincar de verdade com meus amigos e amigas. / Também os doces que aparecem anunciados na televisão não têm gosto de coisa alguma porque ninguém pode comer um imagem. / Já os doces que minha mãe faz e que eu como todo dia, esses sim, são gostosos. / Conclusão: a vida fora da televisão é melhor do que dentro dela.’’
Poemas e cobertores podem formar um time forte e unido nos dias azedos. E quando as coisas ficarem doces novamente, o sabor amargo permanecerá guardado na memória. Pois, assim como o doce, o amargo pode nos ensinar coisas que não teríamos oportunidade de perceber em outra situação. A poesia, nessas horas, pode assumir a imagem de um escada onde pode-se subir num muro. Lá de cima, geralmente, a paisagem é mais ampla.
Vejam Como Eu Sei Escrever – De José Paulo Paes, ilustrações de Alex Cerveny, Editora Ática (telefone: 11 3346-3000 / internet: www.atica.com.br), 32 páginas, R$ 11,00.

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