Celso Blues Boy ainda era adolescente quando ganhou o primeiro disco de blues. ‘‘Quase furei o disco, que tinha um negro gordo na capa’’, admite. O disco fazia parte de um lote de 50 LPs comprados pelo avô nos Estados Unidos. O músico, que Celso não sabia o nome, era B. B. King, e a influência do ídolo é palpável até hoje nos solos de guitarra do brasileiro. Hoje, aos 42 anos e no 9º disco da carreira com o título de Nuvens Negras Choram, Celso acha que a carreira musical não era a única saída. ‘‘Se não fosse músico, seria piloto de corrida ou jogador de futebol’’, acredita.
Celso aponta a avó, a atriz Norma Geraldi, como uma forte influência na carreira. O menino mal ficava de pé quando pegou uma guitarra e começou a bater nas cordas. ‘‘Minha avó achou incrível e resolveu me dar uma de presente’’, conta. Celso, na verdade, não se lembra do episódio. Ele só teve consciência de que tocava guitarra aos sete anos. Mas o caso é tão contado que o músico quase o visualiza.
A música não aplacou a paixão pelo esporte. Diante de uma corrida ou de um jogo do Vasco, Celso se comporta como um torcedor fanático. ‘‘Fico incomunicável’’, admite. A obsessão chega a ponto de Celso dedicar o novo disco ao piloto italiano de Fórmula Mundial, Alex Zanardi. ‘‘Com a perda do Senna virei fã do Zanardi. É uma forma de preencher o vazio’’, assegura.
Leia a seguir trechos da entrevista com o músico.
Por que você dedicou o disco ao piloto Alex Zanardi?
Estava assistindo a uma corrida de Fórmula Mundial quando o Alex Zanardi deu um cavalo de pau com o carro dele para comemorar a vitória. De repente errei no acorde da guitarra e acabou ficando um som parecido com o cantar de pneus do Alex. Veio a inspiração na hora e coloquei o nome da música de ‘‘Zanardi’s Blue’’. O disco também é dedicado a ele porque, mesmo que Zanardi seja italiano, acho que tem um temperamento bem brasileiro. O jeito que ele comemora as vitórias, dando sempre cavalo de pau com o carro...
Esse tipo de comemoração combina com o ritmo blues?
O blues não precisa ser necessariamente um ritmo triste. O principal é passar a emoção. Não importa também a nacionalidade. Quando se lida com emoção não entra em jogo a questão geográfica.
De onde você tira inspiração?
A inspiração vem de Deus. Eu tenho muita fé e acredito nessa coisa de espírito de luz que traz a inspiração. A minha parte eu faço quando pego a guitarra todos os dias e começo a dedilhar. Em média, passo duas horas dedilhando a guitarra. Meu recorde foram 10 horas, estava chovendo e a chuva me inspira muito. Nessa rotina eu já tenho material para mais cinco CDs.
Como foi o processo de escolha de repertório?
Foi tudo meio rápido porque estava de mudança do Rio para Joinville. Nesse processo decidi fazer um disco sem muitas firulas, com ênfase principalmente na guitarra. Não tem muito floreio no som, mas ficou um CD mais caseiro, capaz de passar uma emoção maior. A maior parte é inédita, mas também têm regravações. Não há como fugir de regravações, o público sempre pede. Dessa vez escolhi Brilho da Noite e Fumando na Escuridão. Essas músicas o público sempre pede nos shows.
Você acredita que sempre vai haver espaço para o blues?
Faço mais de 100 shows por ano, já tenho um público garantido. Os lugares de mais público para mim são Rio, Minas, São Paulo, Brasília e Sul do país. Meu último CD vendeu 40 mil cópias.
Existe alguma receita para tocar blues?
Tem de ter apenas sensibilidade e emoção. Não existe técnica. Lembro que procurei até ter aulas de guitarra. Quando fui falar com o professor, ele pediu para que eu tocasse um pouco. Minha digitação dos acordes estava toda errada e queria aprender a digitação certa. O professor, porém, disse que não me daria aulas porque eu já estava tocando da minha maneira. Fiquei frustrado na época, mas entendi depois que não precisava saber a técnica. Bastava transmitir a emoção. Também, com meu talento para aprender coisas, ia acabar desaprendendo.

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