Sobre Woody Allen já se escreveu muito, ou já se imprimiram muitos caracteres, a maior parte em inglês. Há estudos também editados na Europa, boa parte deles na França e na Espanha. E nem tudo de atestada qualidade. Seus próprios escritos, claro, correspondem à melhor literatura não apenas dele, mas afinal sobre ele mesmo: ''Sem Plumas'', ''Cuca Fundida'', ''Que Loucura!'', ''Play It Again, Sam'' e ''A Lâmpada Flutuante'', todos editados no Brasil pela L&PM nos anos 1970 e 80, são preciosas fontes para se conhecer a gênese da sofisticada carpintaria verbal do comediante. E assinadas por terceiros, outras duas solitárias edições são relevantes para compor uma rarefeita bibliografia em português sobre o gênio de Allen: ''Woody Allen'', de Eric Lax (Companhia das Letras, 1991) e ''Woody Allen por Woody Allen'', de Stig Bjorkman (Nórdica, 1994). A este ainda exíguo material publicado aqui sobre o diretor é agora acrescentada, pela primeira vez, uma contribuição de autor brasileiro: ''Woody Allen'', da jornalista e crítica paulistana Neusa Barbosa.
Uma das duas maiores dificuldades para quem se dedica ao estudo crítico de cinema em especial quando se trata de provocar reflexões sobre o trabalho de um consagrado diretor, ou ator, ou técnico é obter total imparcialidade no momento de emitir juízos, sem cair em defesas inoportunas ou apologias em excesso. Nada mais constrangedor que o culto à personalidade sem o acompanhamento de observações críticas pertinentes e apropriadas. A outra tarefa espinhosa é a garimpagem em busca daquele diferencial, do ângulo inédito, da abordagem ainda não trilhada, ou pelo menos não trilhada à exaustão.
''Woody Allen'' (Editora Papagaio, 211 páginas, 30 reais em livrarias, 25 reais através do site www.cineweb.com.br , com frete pago) é perfil cinebiográfico que evita com habilidade as armadilhas da tietagem explícita através de um texto bem organizado, didático e objetivo, sem no entanto deixar de ser reverente. E quanto ao ineditismo de parte do material, a narrativa de Neusa Barbosa privilegia alguns aspectos curiosos e/ou surpreendentes, como as ligações ''brasileiras'' do diretor através de confessadas simpatias pela literatura de Machado de Assis, pela música de Noel Rosa ou pelo estilo tropical de Carmem Miranda.
Utilizando depoimentos de artistas e outros profissionais brasileiros que por algum tempo mantiveram relação de trabalho com Woody Allen entre outros, a atriz Denise Dumont, que participou de ''A Era do Rádio'' em sequência que homenageia a ''Pequena Notável'' , e ainda a partir de revelações durante entrevista do diretor no ultimo Festival de Cannes, a autora ajusta o foco sobre as atenções que Allen dispensa ao Brasil.
Cinéfilos ou mesmo os não iniciados têm ainda, de resto, outras razões para incorporar à estante este título que inaugura a série ''Gente de Cinema'' , da pequena e, ao que tudo indica, valente Editora Papagaio. O livro de Neusa Barbosa registra, de maneira amena e essencial, sem cair em reducionismos, todos os impulsos criativos de um homem que sempre se faz reconhecer em seus filmes. Allen começou como humorista mas um dia se deu conta de que queria fazer filmes à moda européia. Suas maiores influências foram Bergman e Fellini, e isto é claro em seus filmes: ''A Era do Radio'' é Fellini e ''Interiores'' e ''Setembro'' são mais Bergman que o próprio Bergman. Com os anos Allen encontrou o equilíbrio entre suas pulsões de cômico de night club e gênio ''europeu''. Assim nasceram filmes como o delirante e magistral ''Broadway Danny Rose'' ou o mais intimista ''A Outra'', absolutas obras-primas.
Outras características do cinema de Allen, como sua cinefilia, sua paixão pelo jazz e pelas cidades de Nova York, Paris e Veneza, sua independência artística mantida intacta apesar de Hollywood, sua persona privada envolvida em incidentes públicos tudo é objeto do estudo que Neusa Barbosa leva a bom termo informativo, em estilo leve e agradável.

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