Allan Sieber e seu 'jornalismo gráfico'
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Nem todo mundo tem a habilidade de transformar momentos constrangedores em humor, ainda mais gráfico. E pouca gente está disposta a rir de si mesma, de exaltar sua própria faceta ridícula em prol da arte. Uma dessas pessoas é o gaúcho Allan Sieber. Ele desacata autoridades, pisa em celebridades, insulta amigos mas não perde a piada e, acima de tudo, diverte com suas experiências autobiográficas, com seu ''jornalismo tendencioso e ficcional''. Um apanhado do material do artista está disponível no álbum ''É tudo mais ou menos verdade'', lançado pela Editora Desiderata.
A ironia já começa no título: Sieber alfineta a crescente onda de quadrinhos jornalísticos e expõe sua própria experiência nesse estilo narrativo. O álbum coleciona produções inéditas e material já publicado em revistas estrangeiras e nacionais, como Piauí, Trip, Sexy e Playboy, além de jornais e edições mais ligadas ao universo underground, onde o autor faz questão de manter raízes, a exemplo de Tarja Preta, Matanza Comix, entre outras.
Em sua passagem pelo Fashion Rio, o ''repórter gráfico'' usa seu mau-humor e olhar crítico em sequências capazes de arrancar risadas até do mais sisudo fashionista. O olhar blasé de uma jornalista de moda (a quem o autor chama de ''cabeça de playmobil''), as extravagâncias nos desfiles, a exagerada vaidade das modelos, tudo se transforma em quadros hilários. Em um tom ácido, diga-se de passagem, o que pode ferir o ego de quem vestir a carapuça.
Sem muitas firulas na arte ou preocupação estética com narrativa, Sieber consegue transformar o banal em comédia, bem no estilo ''é engraçado porque é verdade''.
O álbum da Desiderata também merece elogios devido à preocupação editorial específica com os quadrinhos. A editora teve o cuidado de escolher gramatura e tipo de papel apropriados para o preto-e-branco e para o colorido.
Courtney Crumrin & o Pacto dos Místicos - Em tempos de sucesso da literatura infanto-juvenil fantástica, fica difícil encontrar originalidade nas prateleiras. Talvez porque essa não seja a qualidade que os leitores procurem e sim a identificação com o protagonista, a criatividade com que o autor lida com os já conhecidos elementos dessas propostas. Courtney Crumrim, de Ted Naifeh, segue essa linha, bastante explorada por J. K. Rowling e seu Harry Potter nos últimos anos: a de divertir evocando e misturando mitologias e fábulas.
''Courtney Crumrim & o Pacto dos Místicos'', lançado por aqui pela Devir Livraria, narra a aventura gótica da pequena bruxinha diante de seres assustadores e poderosos. Tudo com aquela doce inconsequência adolescente misturada com elementos sombrios e curiosos, intrigantes, especialmente para os mais jovens.
Naifeh não traz nada de novo em termos de conteúdo mas consegue envolver devido a um pequeno detalhe, primordial para o sucesso de sua série, originalmente editada pela Oni Press nos Estados Unidos: ao invés de escrever contos de fadas modernos em forma de prosa ilustrada, o roteirista e desenhista enquadra as travessuras de Courtney em narrativa da nona arte.
O resultado é um suspense gráfico interessante, já que os leitores vão se familiarizando com uma boa amálgama de um texto sugestivo e arte em busca do suspense visual, influenciado por filmes do gênero. Essa é a grande qualidade da edição, que excita a imaginação em quadros de notável criatividade gráfica, sem ser redundante.
Serviço
- ''É tudo mais ou menos verdade - Jornalismo investigativo, tendencioso e ficcional de Allan Sieber'' tem 128 páginas no formato 21 x 28 cm com capa colorida e interior preto-e-branco e colorido, a R$ 49,90.
-''Courtney Crumrin & o Pacto dos Místicos'' tem 136 páginas com capa colorida e interior preto-e-branco no formato 16,5 x 24 cm e custa R$ 20,90.


